A Aula Magna, em Lisboa, acolhe esta quinta-feira, a iniciativa em que o principal promotor é Mário Soares.
A frase é repetida até à exaustão pelos promotores. A Conferência Libertar Portugal da Austeridade é uma iniciativa "que se esgota em si mesma" e não tem uma agenda para o futuro. As intervenções dos principais seis oradores estarão centradas no combate político à política de austeridade e à queda do actual Governo. Foi esse "denominador mínimo comum", como o classificou o socialista Vítor Ramalho, que permitiu que se confirmasse este "facto novo" salientado pelo candidato derrotado à Presidência da República Manuel Alegre. Os três principais partidos da esquerda estarão representados na Aula Magna, na iniciativa promovida pelo antigo Presidente da República Mário Soares. Os discursos contra a austeridade e o Governo estarão a cargo deste último, de Maria do Rosário Gama (da associação Apre!), de Cecília Honório (BE), do eurodeputado comunista João Oliveira, de Ramos Preto (PS) e do reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa.
Ainda que remetam para os partidos a solução de um governo de esquerda, os promotores não deixam de o defender. "Aquilo é aberto para evitar confusões e, por isso mesmo se evitou convidar líderes ou secretários-gerais", começa por assumir Manuel Alegre. Mas a expectativa existe. "Às vezes há um pequeno clique que abre caminhos", resume o histórico socialista.
Mário Soares não esconde também que, com este encontro, pretende puxar o PS para a esquerda. "Gostaria que isso acontecesse", reconhece, quando questionado pelo PÚBLICO, deixando claro que o principal objectivo da iniciativa é "falar da necessidade absoluta de o país ter um governo de esquerda".
"Este Governo já não é legítimo, foi eleito por engano e governa contra o povo", justifica, mostrando-se "indignado por estarem a destruir o país". "Eu amo Portugal", clama, numa declaração que será o tema do novo livro que está a escrever.
Mas por que motivo Soares defende agora ser imperioso ter um governo de esquerda, se ele próprio governou com a direita, senão à direita, questionamos. "O PS nunca governou à direita", afirma, acrescentando que naquela altura os socialistas tiveram uma "luta com o PCP, mas era outra coisa": "Não queríamos que o PCP nos absorvesse."
A aliança à direita também era outra coisa: "Quando nos aliámos com o CDS, era um partido democrata-cristão e foram os socialistas e os democratas-cristãos que construíram a Europa", argumenta. "Hoje o CDS já não é democrata-cristão, salvo uma ou outra excepção, como o Pires de Lima. Hoje é Partido Popular e foi Paulo Portas que deixou de ser democrata-cristão", sublinha. Para concluir: "O PS não deve estar no Governo com o CDS."
O próximo passo caberá aos partidos. "Agora os partidos políticos devem reflectir. Aqueles que pensam só no centro, têm de ver que o PCP e o BE estão a crescer. Por vezes, por se querer ganhar o centro, acabam por perder a esquerda", alerta Alegre, ao mesmo tempo que frisa não estar a visar a actual direcção do PS, mas antes a fazer a análise da "experiência histórica" de outros momentos.
Para João Semedo, um dos dois coordenadores do BE, este é um primeiro passo à esquerda, mas que não traduz qualquer compromisso político para o futuro. Semedo não desvaloriza a capacidade de a esquerda se unir para responder a um debate público sobre a austeridade, mas reconhece que há outras exigências que são pedidas à esquerda e que não ficarão satisfeitas com esta sessão pública. No entanto, diz Semedo, "resulta claro que isto reforça o campo da esquerda, da oposição à política de austeridade e o campo dos que se batem pela demissão do Governo, que fica mais enfraquecido com esta iniciativa".
Hoje, no entanto, o foco estará nas individualidades. O social-democrata Pacheco Pereira é apresentado como um exemplo da abrangência. O também promotor da conferência não marcará presença por estar fora do país, adianta Alegre, mas enviará mensagem. A "homens da Igreja", como Vítor Ramalho classifica Frei Bento Domingues, juntar-se-ão militares do 25 de Abril como Vasco Lourenço, e figuras dos movimentos sociais, como Carlos Mendes do Que Se Lixe a Troika.
A ouvir os discursos estarão também os líderes da UGT e CGTP, Carlos Silva e Arménio Carlos. E depois há ainda nomes de peso das estruturas partidárias. Os coordenadores João Semedo e Catarina Martins partilharão a sala com os comunistas Domingos Abrantes e Jorge Cordeiro, que, por seu turno, verão ali socialistas como Ferro Rodrigues (ex-secretário-geral do PS), Pedro Silva Pereira, antigo braço direito de José Sócrates no anterior Governo, e o líder da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS, Marcos Perestrello.
"É o começar de qualquer coisa", adivinha Carlos Mendes. O quê exactamente não consegue precisar. Mas reconhece como "importante" o "envolvimento das esquerdas". "Esta unidade na acção que se está a criar vai ter de ter resultados."

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