Quando os professores começam a virar-se para o estrangeiro

Anos sucessivos sem colocação levam muitos professores a dar aulas no estrangeiro JOãO GUILHERME

Só através da Cooperação Portuguesa são cerca de 1500 os docentes portugueses que trabalham por todo o mundo. Outros, muitos (não existem estatísticas), partem por conta própria. Vão à aventura, guiados pela promessa de uma estabilidade que não conseguem encontrar em Portugal

Quase todos os dias, Cláudia F., de 30 anos, enfrenta viagens de uma a duas horas e meia em estradas "com muitos buracos". Teve dificuldade em se adaptar ao clima húmido, tão diferente do seco Portugal, mas foi-se habituando quer às estradas esburacadas quer à humidade. Sente falta da "família", que escreve em letras capitais no email, e que está a quase 18.500 quilómetros de distância, em Lamego. É professora de Biologia e Geologia e está há quase um ano em Timor-Leste, na região de Baucau, a dar formação a professores.

Em Portugal, a experiência como professora limitou-se a uns quantos contratos na região de Lisboa: horários incompletos, temporários, mas também, pelo meio, experiências enriquecedoras que viveu pelas escolas por onde passou e que não puderam ser renovadas. Dois anos sucessivos sem colocação, ou com contratos cujos salários não chegavam para pagar as despesas mais básicas, levaram Cláudia F. a arriscar a última cartada: dar aulas no estrangeiro.

No caso de Cláudia, a opção até não foi a última e sim uma das primeiras: "Depois de ter deixado a universidade, quase todos os dias pesquisava na Internet sobre concursos e ofertas para África e para Timor." Curiosa por natureza, sempre teve uma "vontade imensa de conhecer outras culturas, modos de vida, formas de trabalhar". Foi numa das suas pesquisas que encontrou um concurso de professores para Timor-Leste. Foi seleccionada, depois de cinco anos a tentar.

Tal como Cláudia, outros professores começam a virar-se cada vez mais para o estrangeiro. Por meios próprios ou através da colocação via Instituto Camões, muitos destes contratados procuram novas oportunidades de vida na Internet, no Facebook, em agências de recrutamento. Ensinam um pouco de tudo, em português ou nas línguas locais, dão formação, estabelecem protocolos e acordos bilaterais.

Cláudia deixou Portugal para trás e um dia começou tudo de novo, sozinha, num país distante. As viagens, o convívio com os timorenses, o vício de fotografar paisagens e gentes são a prova de que arriscou bem. "Gosto de conversar com as pessoas, de ouvir as suas histórias reais."

Apesar de as condições de trabalho não serem as ideais e a língua ser uma dificuldade, já que muitos timorenses não falam português, Cláudia vê várias vantagens na sua estada em Timor. "O tempo de serviço é contabilizado", o que lhe permite acreditar numa futura colocação em Portugal. "A nível monetário também é positivo."

GPS com destino a Londres

Mais perto de Portugal ficou José Finisterra, de 28 anos. Licenciado em Educação Física e Desporto, só tinha passado pela experiência de dar aulas de Educação Física nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC), no 1.º ciclo.

Há dois anos que José Finisterra concorria a "inúmeras ofertas de emprego, sempre sem sucesso", depois de ter concluído o mestrado em Actividade Física Adaptada. "Fui para Londres sem nada assegurado, apenas casa para ficar nos primeiros tempos", explica José, que aproveitou a ida de um amigo para a capital britânica para se instalar com ele, "pagando apenas o mínimo, enquanto não encontrava trabalho".

Dadas as características da sua especialização, resolveu tentar a sorte como professor de alunos com deficiência. Foi uma agência de recrutamento que o colocou, em Janeiro, numa escola londrina como professor assistente de Educação Física.

Procurar emprego em Londres não foi propriamente fácil, recorda José Finisterra. Uma das principais dificuldades foi "dar com os lugares das entrevistas, nos primeiros tempos". À falta de um GPS, José desenhava num caderno os percursos que tinha de fazer e os transportes que precisava de apanhar. A língua, embora a domine, foi outra barreira, até porque levou o seu tempo a adaptar-se ao "British accent".

Hoje, já não precisa de dar tantas voltas. Tem lugar fixo de trabalho e até parece que a escola o vai contratar a partir do próximo ano lectivo: "Propuseram-me deixar de trabalhar para a agência que me colocou, para ficarem comigo em definitivo", conta José, que assume ter criado "uma óptima relação de amizade com o staff e alunos da escola". Não obstante a distância da família e dos amigos, sente-se bem onde está. "Voltar a acreditar nas minhas capacidades foi essencial para a minha felicidade e realização pessoal."

De acordo com a Associação Nacional dos Professores Contratados, Inglaterra é o destino comum a muitos docentes que se vêem sem colocação em Portugal. Há quem esteja "a satisfazer as necessidades transitórias de docentes, realizando substituições diárias, em locais diferenciados de Londres", disse ao PÚBLICO César Israel Paulo, porta-voz da associação.

César Israel Paulo destaca a mágoa com que muitos destes docentes abandonam o seu país e que, uma vez instalados no estrangeiro, não expressam vontade de regressar. Acrescenta ainda que são muitos os professores portugueses que emigram para Inglaterra por ser mais fácil a obtenção de um visto para a Austrália, "onde as condições de trabalho são bem melhores". Mas não dispõe de números. "São muitos", diz.

"Sozinha nesta caminhada"

Aos 44 anos, Ana Antunes divide o seu coração entre Portugal e a Alemanha. Nascida e criada em Hamburgo, conhece bem o funcionamento das escolas alemãs onde foi aluna e hoje é professora. Licenciou-se em Portugal, em Línguas e Literaturas Modernas na variante de Inglês-Alemão, e, por um período de quatro anos, regressou para Hamburgo, onde deu aulas no ensino secundário. Há cerca de sete anos, o apelo à terra dos pais foi mais forte e decidiu dar uma oportunidade a Portugal. À semelhança de José Finisterra, passou pela experiência das AEC como professora de Inglês no 1.º ciclo e deu também formação a adultos, à noite, "sempre a recibos verdes, muitas vezes com meses de atraso no pagamento".

Não se sentia professora. Começava a trabalhar quando os restantes professores saíam das escolas. Horários reduzidos, inexistência de contratos e a situação "complicada dos recibos verdes" fizeram-na repensar a vida. "Resolvi telefonar para a minha antiga escola na Alemanha e, qual não foi o meu espanto, quando a directora me ofereceu um lugar e até me pediu desculpa por ser como professora primária e não no secundário. Ela lembrava-se de que eu não gostava muito de leccionar aos mais pequenos." Ana apressou-se a explicar-lhe que na realidade tinha passado os últimos anos dedicada ao 1.º ciclo. Hoje agradece às AEC pela experiência, que acabou por se tornar uma mais-valia.

No ano lectivo passado assegurou uma turma de 3.º ano, onde lecciona todas as disciplinas. Não tenciona regressar a Portugal, até porque não quer privar o filho, que entretanto levou consigo para a Alemanha, das "inúmeras oportunidades que este país tem para lhe oferecer".

Na escola onde dá aulas sente um reconhecimento que não chegou a sentir em Portugal. "Não estou sequer a falar nas diferenças financeiras, mas sim na valorização que dão aos professores, no apoio incondicional por parte da direcção escolar, e os próprios alunos, que vivem numa realidade muito diferente da dos alunos portugueses."

Uma aventura tropical

Em Hamburgo está em casa, apesar do seu amor incondicional por Portugal. "Embora tenha aqui muitos amigos, estou nesta caminhada sozinha. Não é fácil ter de tomar todas as decisões, sozinha, sem ajuda."

Mal se apercebeu de que o seu horário completo, mantido durante três anos na mesma escola, iria desaparecer, Dulce Neves fez contas à vida e não esperou pela reserva de recrutamento, que coloca os professores contratados nas escolas públicas, semanalmente, durante o ano lectivo. Perder tempo de serviço, engrossar as fileiras do centro de emprego, esperar por um horário que nunca se sabe quando vai surgir são problemas que quis contornar.

Aos 31 anos, tornou-se agente da Cooperação Portuguesa, através do Instituto Camões, e, há cerca de um ano, assumiu funções como professora de Ciências, Biologia e Geologia, no Instituto Diocesano João Paulo II, em São Tomé e Príncipe. Já antes, acabada de sair da faculdade, Dulce tinha dado aulas na Guiné-Bissau, também num projecto da Cooperação Portuguesa, onde simplesmente "quis viver a experiência" - "Desta vez, quis fugir da precariedade das condições de contratação, já que o meu horário desapareceu devido à revisão curricular."

Dulce é um dos 1465 docentes da complexa rede de Cooperação Portuguesa, que se estende por cerca de 70 países, em todo o mundo. O Instituto Diocesano onde dá aulas é uma das duas escolas santomenses que seguem o currículo português. Além de São Tomé e Príncipe, existem mais Escolas Portuguesas em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste e Macau.

Em São Tomé, Dulce tem alojamento garantido e a possibilidade de renovar o seu contrato, embora nem tudo seja fácil na opção que fez. "Não vou ver o meu sobrinho crescer. O meu namorado ficou em Portugal. A minha casa ficou em Portugal", explica.

Admite não suportar a xenofobia e o machismo que sente em seu redor, na ilha africana. "Aqui, só por seres mulher, muitas vezes nem te ouvem." Apesar de tudo, "as dificuldades são contornáveis".

São também muitos os aspectos positivos que destaca em relação à experiência. E enumera-os numa lista de 13 itens, onde sublinha o respeito que a comunidade educativa tem pelo trabalho dos professores e o facto de ter "turmas pequenas". Além disso, tem a oportunidade de comer frutas tropicais todos os dias e de poder ir à praia durante todo o ano. Delicia-se com as bananeiras e as crianças que brincam ao ar livre. "Gosto de ouvir os santomenses a dizer "chê piquena" e "kê quá!"."

Tão cedo não prevê voltar a Portugal, a não ser de férias.

Ensinar português lá fora

A rede da Cooperação Portuguesa, gerida pelo Instituto Camões, inclui também o Ensino de Português no Estrangeiro (EPE), que conta com 383 professores do ensino básico e secundário e 51 leitores do ensino superior. Estão espalhados por nove países europeus (Alemanha, Reino Unido, Luxemburgo, Países Baixos, Bélgica, Espanha, Andorra, França e Suíça) e quatro africanos (África do Sul, Namíbia, Suazilândia e Zimbabwe). "Na sua maioria, [são] professores com graduação na área do português, mas há também professores na área da história", explica Mário Filipe, vice-presidente do Instituto Camões.

O número de vagas para professores para o EPE tem vindo a diminuir. Os candidatos não, continua.

Adivinham-se mudanças. A partir do próximo ano lectivo, os professores da rede EPE vão passar a ter "uma comissão de serviço de dois anos", diz Mário Filipe, quando até aqui os contratos, ainda que renováveis, eram de apenas um ano.

Irene Lemos, 51 anos, é uma das professoras que têm exercido funções no EPE, há 15 anos. Dá aulas em duas escolas do Luxemburgo, em cursos pós-laborais e em cursos integrados, diurnos. "Esses cursos integrados fazem parte de acordos bilaterais entre os dois países", conta Irene, que assegura as disciplinas de Ciências, História e Geografia, sempre em língua portuguesa.

O marido já dava aulas também no estrangeiro e Irene aproveitou a boleia. Mudou-se com toda a família para o Luxemburgo, inicialmente com a ideia de obter uma boa remuneração, "o que não se verifica actualmente com os sucessivos cortes e aumentos de IRS" que tem de pagar em Portugal.

"Apesar de todas as preocupações e do stress ao longo dos anos devido às mudanças no EPE, é uma experiência muito positiva e a comunidade reconhece, na sua maioria, o nosso trabalho. É sobretudo um grande enriquecimento pessoal."

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