Exaltou a capacidade de fomentar consensos e por uma vez falou do crescimento económico e da criação de emprego
Depois de, nas suas duas últimas intervenções públicas - o discurso de Ano Novo e a entrevista ao semanário Expresso de sábado passado -, o Presidente da República ter reflectido sobre a crise económica, ontem Aníbal Cavaco Silva apelou ao orgulho dos portugueses. Foi no Centro Cultural de Belém, no encerramento da conferência comemorativa dos 40 anos do Expresso, num discurso de 20 minutos e nove páginas.
"Portugal detém uma influência superior ao seu peso relativo, Portugal é visto, justamente, como um mediador neutral, negociador de consensos e defensor de valores universais", disse Cavaco Silva. Como prova desta sua afirmação, o Presidente da República acentuou que "poucos países com a dimensão de Portugal se podem orgulhar de terem estado no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como membros não permanentes, em duas décadas consecutivas."
Mais à frente, Cavaco recordou que "foi na vertigem da viagem que Portugal se encontrou consigo próprio, naquilo que tem de melhor". A História foi revisitada: da África à Ásia, dos países ibero-americanos à Turquia, do Médio Oriente à Rússia. Um percurso só possível porque, salientou por duas vezes o Presidente, "temos a arte rara de construir pontes e criar laços", ou "somos reconhecidos por cultivar a tolerância e o diálogo de culturas."
Quando se referiu ao processo de construção europeia, Cavaco Silva defendeu não apenas a União Económica e Monetária, como a União Bancária. Foi então que, por uma vez, abordou um tema de actualidade. Defendeu "uma agenda claramente orientada para o crescimento económico e para a criação de emprego."
Mas a mensagem de ontem tinha o tom de optimismo. "O Portugal de hoje deve ser motivo de esperança", assegurou. "Somos um país democrático e aberto. (...) Portugal sempre foi maior quando se abriu ao Mundo, quando não teve medo da aventura e do risco", prosseguiu. E concluiu: "Se soubermos agir com inteligência, firmeza e responsabilidade, não devemos recear o presente, pois um futuro melhor é uma realidade ao alcance das nossas mãos."
Já o ex-Presidente da República Mário Soares defendeu na conferência do Expresso que os mercados financeiros devem ser sujeitos a regras, caso contrário as democracias entrarão em descrédito num processo que pode levar a um conflito global. "Os mercados não podem ser senhores dos Estados, têm que ser dominados pelos Estados e seguir regras", disse. Mário Soares lembrou que o Papa Bento XVI defendeu na sua mensagem de Ano Novo que o capitalismo sem regras é uma ameaça à paz e afirmou concordar com aquela afirmação: "A globalização tem que ter regras, tem que ser regularizada". "Isso é o fundamental e se não for assim nós vamos ter uns anos em que vamos ter grandes sarilhos, as democracias vão entrar em descrédito, em muitos sítios já estão, e vamos ter porventura uma terceira guerra mundial", advertiu. Disse ser a favor do fim dos paraísos fiscais, e que "se acabe com a roubalheira". com Lusa

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