O dia em que vesti um lindo fato castanho
Os rapazes e raparigas da minha escola que fizeram o exame da quarta classe numa pequena vila do Alto Douro, pouco antes do 25 de Abril, podem não se lembrar das perguntas, das respostas ou até das notas que tiveram. Mas lembram-se de certeza do cerimonial que rodeou aquela manhã de Primavera, talvez uma quarta-feira, lembram-se da lufa-lufa em casa antes de irem para a escola, lembram-se da solenidade de um dia que, de alguma forma, os iniciou numa etapa da vida com outro nível de responsabilidade. Eu, por exemplo, não posso esquecer o fato castanho claro que o meu pai comprou no Pinhão, as dúvidas que a minha mãe colocou à sua estética, a camisola de gola alta que alguém me ofereceu e, principalmente, a altivez com que saí à rua assim tão engalanado e importante. Quando hoje se fala de pressão sobre as crianças convocadas para os exames, não posso deixar de recordar esses dias e suspeitar que o professor Morais fez tudo o que estava ao seu alcance para que nos sentíssemos pressionados. Com as suas mãos enormes e peludas e o seu alto porte, reforçou a dose de contas, dos ditados intermináveis e dos prémios aos que sabiam e das punições aos que "eram burros". O ritual das vestes, fatos para os meninos, vestidos franzidos com laços gigantescos nas costas para as meninas, contribuía para esse ambiente de pressão. Num tempo em que a paisagem da sala de aula se fazia ainda com muitas calças remendadas, com socos de madeira que transformavam uma viagem pelo soalho até ao quadro um suplício, aquela simbologia sustentada numa maior exigência no traje, e também na higiene, era apenas outra forma de exaltar a ansiedade criada pelo senhor professor Morais.
