Milhares de preservativos serão distribuídos durante a visita do Papa Bento XVI

Iniciativa espontânea de três jovens juristas de 23 anos já captou o apoio de mais de duas dezenas de associações

Abundam ameaças, através da Internet, mas os promotores da iniciativa não admitem recuar. Haja o que houver, distribuirão preservativos e folhetos informativos sobre prevenção de VIH/sida nas zonas de acesso aos locais onde Bento XVI celebrará missa: antes da cerimónia de dia 12 (Lisboa) e depois das cerimónias dos dias 13 (Fátima) e 14 (Porto).

No Facebook, o grupo Preservativo "ao" Papa em Portugal já agrega dez mil simpatizantes. À volta de duas dezenas de associações juntaram-se a esta iniciativa de três jovens juristas e, através delas, o movimento já soma cerca de uma centena de voluntários e mais de 25 mil preservativos.

No último Verão, Diogo Caldas Figueira foi visitar uns tios à Namíbia e contactou, pela primeira vez, com o vírus: trabalhadores seropositivos com filhos seropositivos. A experiência marcou-o. Dentro dele começou a desenvolver-se a vontade de fazer mais do que "dizer mal". O rapaz indignara-se ao ouvir Joseph Ratzinger, na sua primeira visita a África, a 17 de Março de 2009, afiançar que, no que à sida diz respeito, o preservativo não é parte da solução, mas parte do problema: "Agravam a situação e contribuem para espalhar a doença e contaminar cada vez mais pessoas." Inquietara-se com as eventuais consequências de tais palavras. Deduzira que travariam a luta das organizações não governamentais que no terreno tentavam sensibilizar as populações para o uso do preservativo.

O anúncio da visita de Bento XVII - a 11, 12 e 13 de Maio - reacendeu a vontade de ir além da crítica. Numa conversa de café com Rita Barroso Jorge e Joana Vieira da Silva, que com ele fizeram a licenciatura em Direito na Universidade do Porto - agora dois fazem mestrado na Universidade Católica do Porto e uma na Universidade Nova de Lisboa.

A 20 de Março, no Facebook, Diogo criou o grupo Preservativos "ao" Papa em Portugal e convidou os seus "cento e tal amigos". Amigo puxa amiga. Em 24 horas, alcançou dois mil simpatizantes. Os três jovens alegram-se com a diversidade dos apoios que conseguiram captar. Entidades que trabalham na área, como a Associação Abraço ou o Movimento de Apoio à Problemática da Sida, mas também com outras sensibilidades, como o Espaço T, o Portugal Gay, o SOS Racismo, a União de Mulheres Alternativa e Resposta. Dizem-lhes que valorizam o facto de esta ser um movimento espontâneo. O trio percebeu que, afinal, a iniciativa podia mesmo ter pernas para andar. Delinearam o projecto, que Diogo agora sintetiza sentado ao lado de Joana: "Estamos aqui pela luta contra a sida. Não estamos aqui contra o Papa ou contra os católicos. Muitos católicos associaram-se a nós. Aliás, a Joana e a Rita são católicas." Não é, porém, assim que a iniciativa tem sido interpretada por muita gente.

Nos comentários que se multiplicam ali e no Facebook, há quem os acuse de ter uma agenda escondida. Ora, são ateus ou gays ansiosos por ridicularizar o Papa e os católicos. Ora, são covardes que nem têm coragem de organizar um protesto com cartazes e altifalante.

Escreve alguém que assina Gusmão Xarelho: "Chamar à iniciativa "Preservativos ao papa", pretender distribuir preservativos a quem não vai precisar deles; dizer que não querem confrontos e provocações, mas fazer todo um programa baseado naquilo que dizem ser "declarações assassinas" do Papa [...] revela a vossa estupidez, demagogia e ódio." Escreve alguém que assina Jcerca: "Se alguma violência acontecer com os vossos agentes provocadores, já estou a ouvir o vosso berreiro contra a falta de liberdade e a falta de respeito. Mas será tão grande esse berreiro, amplificado pela vossa aliada comunicação social, que não deixará ouvir também a falta de liberdade e de respeito contra a qual vocês se insurgiram."

No início, o rapaz de 23 anos e as amigas da mesma idade ficaram chocados com os comentários que liam no blogue criado para divulgar a campanha (http://preservativospapa.blogspot.com/ ). Diogo respondia até ao mais aceso dos insultos. Sempre a afirmar que esta "é uma acção de sensibilização pela positiva", que não pretendem "afrontar o Papa". "Escolhemos esta data por acharmos que é uma oportunidade dourada para chegar a uma população que noutra altura não estará tão sensível", explica. Agora, já se conformou.

De uma coisa Diogo tem a certeza: não serão os insultos ou as ameaças que o farão desistir; nem a Joana, nem a Rita. Já houve quem lhes prometesse que irá à missa, mas que antes ou depois disso, lá estará, de t-shirt branca e com o laço vermelho, a distribuir preservativos e panfletos. Ideia-chave: "O VIH é indiferente à religião."

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