Miguel Bombarda O que fazer com este património?

Foi quinta, casa-mãe de uma congregação religiosa e colégio militar. O agora desactivado Hospital de Miguel Bombarda é, para muitos, apenas sinónimo de antigo hospício. Uma parte está classificada, mas várias entidades propõem agora que o espaço seja considerado conjunto de interesse público

Por detrás da secretária, no pequeno escritório, pende da parede azul um retrato a óleo do duque de Saldanha que testemunhou um crime: a pintura exibe um rasgão, marco de passagem das balas. Este gabinete é o "principal testemunho material da revolução republicana" e quem o garante é Victor Freire, historiador e antigo director do museu do hospital. Aqui, a 3 de Outubro de 1910, véspera da revolta, no gabinete que lhe pertencia enquanto dirigente do hospital, Miguel Bombarda foi alvejado por um doente.

Este é algum do legado que ainda vive nos edifícios do primeiro hospital psiquiátrico do país, propostos à Direcção-Geral do Património e da Cultura como conjunto de interesse público. Entregue em Março, a candidatura subscrita pela Associação Portuguesa de Arte Outsider e pelas sociedades portuguesas de Psiquiatria e Saúde Mental, de Neurologia e de Arte Terapia, conta com o aval de Raquel Henriques da Silva e Vítor Serrão, directores dos Institutos de História da Arte da Universidade Nova e da Faculdade de Letras de Lisboa. Em 2010, deste espaço foram classificados o Pavilhão de Segurança, onde ficavam os doentes mentais que eram perigosos ou presos declarados inimputáveis, e o Balneário D. Maria II, destinado a banhos terapêuticos. Pede-se agora que se lhes juntem outros edifícios e algum do mobiliário, presente ou deslocado, que faz parte da estética e memória histórica do local.

O PÚBLICO foi conhecer alguns dos lugares que a candidatura quer salvaguardar, onde a Ciência e a Medicina se entrecruzam com a História, a Arquitectura, a Arte e a Cultura.

A história deste local começa muito antes de se ter fixado aqui o hospital e pode ser contada pelo edifício principal. Antigo convento, erguido na Quinta de Rilhafoles entre 1720 e 1740, foi casa-mãe da Congregação da Missão e uma das raras construções religiosas a resistir ilesa ao terramoto de 1755. Destinada a residentes de retiros e a alunos do seminário, foi a partir daqui que terão partido os missionários portugueses para Goa, Macau, China e Brasil. "Estamos perante um convento de uma ordem da qual não há propriamente vestígios em Portugal. Lisboa tem cerca de 90 conventos, a maioria está num estado de abandono ou completamente destruída", afirma Vítor Serrão, historiador de arte que apoiou a candidatura.

Esta ordem terá tido grande influência junto da família real, que participou nos festejos que aqui se fizeram para celebrar a canonização do fundador da congregação, S. Vicente de Paulo. Durante oito dias, D. João V assistiu aos concertos da Orquestra da Patriarcal, que ele próprio fundou, numa espécie de festival de música sacra e barroca, realizado na pequena igreja que ainda se mantém.

Este pedaço de história da Congregação da Missão levou a que a candidatura deste edifício fosse subscrita pela ordem religiosa. "Como o local está ligado à nossa memória, à nossa história, e até à da cidade de Lisboa, o nosso interesse é que não seja destruído. Queremos que continue para contar essa mesma história", afirma Álvaro Cunha, padre-visitador da congregação.

Já depois do fecho do hospital, a Estamo, proprietária do terreno, anunciou a construção de uma urbanização neste local, garantindo a continuidade dos edifícios na altura classificados, projecto que até a data não se realizou. Contactada pelo PÚBLICO, a empresa afirma que, "de momento, não há grandes novidades" quanto ao futuro do antigo hospital. Acrescentou que existem contactos com a Câmara Municipal de Lisboa, com a qual está a ser desenvolvido um plano de pormenor do imóvel. A autarquia confirmou que o estudo será "brevemente apresentado em reunião de câmara".

Inovação e vanguarda

Com a saída da Congregação da Missão, em 1835, instalou-se aqui o Colégio Militar, nos 13 anos que se seguiram. O Hospital dos Alienados de Rilhafoles, como era conhecido à data, só viria a inaugurar-se em 1848.

Ainda no edifício principal, junto a um posto de segurança, há uma porta dupla que passa despercebida. À entrada da pequena sala de paredes azuis descascadas, as tábuas do soalho afundam-se debaixo dos pés. No chão, há vidros partidos, folhas e um tijolo e, debaixo da janela, a madeira apodrecida já caída.

Fruto do ideário de Miguel Bombarda, esta sala é referenciada num dos seus relatórios, onde determina que servirá como um museu e espaço para dar os seus cursos de Psiquiatria. Anterior à primeira exposição de arte dos doentes, que só se vem a realizar em 1900, este será dos primeiros museus com uma colecção de arte dos doentes, incluindo pinturas e escritos. Enquanto sala de cursos, aqui era ensinado pelo próprio director um curso de Psiquiatria, que na altura não estava ainda incluído no currículo do curso de Medicina. Mas o elemento que nesta sala se destaca é o tecto, que conjuga os dois pólos: o artístico e o médico-científico. De um lado, os símbolos da arte - a lira, uma paleta e pincéis, maço e cinzel e livros -, do outro, os da ciência - desde um globo, um transferidor e um compasso até um telescópio e folhas de papel. "Esta sala tem grande importância em termos internacionais, não só por ser um dos primeiros museus do género, mas também por ter uma decoração própria, o que se desconhece no estrangeiro", explica Victor Freire.

Lá fora, junto ao classificado Balneário D. Maria II, tapado por andaimes e suportado por tábuas em madeira, o segurança avisa que está em risco de ruína. Dos vários edifícios que em volta se desenham, cada um com o seu estilo, há um alto, de janelas gradeadas e vidros partidos, imponente pelo aspecto decadente, conhecido pelo nome de Pavilhão em U. Pela porta meio escancarada, trancada por uma corrente, vemos paredes caídas, com a estrutura de madeira à vista. Aqui não nos vai ser possível entrar. Concebido após uma viagem de Miguel Bombarda pelos hospitais psiquiátricos europeus, é dos primeiros edifícios hospitalares feitos em betão a nível europeu.

O edifício em frente deste também se destaca pela sua arquitectura inovadora. O seu plano segue uma concepção do hospital psiquiátrico ideal definido por Esquirol, psiquiatra francês, em rés-do-chão que protegesse os doentes de tentativas de suicídio e, ao mesmo tempo, não necessitasse de barras na janela. O longo corredor vazio é quebrado por três corredores perpendiculares, também eles extensos. Nos espaços que os corredores entrecruzados delimitam abrem-se pequenos jardins exteriores. Pouco resta de vestígios de vida: numa das salas, junto a uma janela suja por tinta laranja, um calendário de 1986 colado na parede.

Também a cozinha apresenta uma arquitectura única: um tecto de esticadores em ferro, ajustáveis, que o suportam sobre as paredes. O antigo director do museu fala na originalidade da construção: "Os arquitectos e engenheiros que visitaram o hospital dizem que nunca viram nada como isto. Todos são edifícios muito importantes para a arquitectura em Portugal e até mesmo em termos europeus, altamente inovadores para o seu tempo", explica Victor Freire.

Mas se este local é o berço de arquitecturas vanguardistas, também se vai demarcar pelos avanços médico-científicos. Foi no laboratório, mais recentemente casa mortuária, mandado construir por Miguel Bombarda, que o médico e investigador Mark Athias conduziu as suas investigações na Neuro-histologia, iniciando um capítulo na Medicina portuguesa. Hoje, na mesa de autópsias em mármore restam uma lâmina de gilete, um saco de plástico preto, uma pequena peça de vidro e uma cabeça de uma vassoura. Apenas um suporte em madeira para colocar o pescoço dos cadáveres e uma etiqueta de aspecto antigo, onde se lê que Joaquim Dias Vaz faleceu em Julho de 1996 devido a uma cirrose hepática, parecem estar no sítio certo. Aqui, Mark Athias e, mais tarde, João Lobo Antunes recolheram para estudo centenas de amostras de cérebros que eram armazenados na sala ao lado, na qual sobra apenas um móvel onde o pó já há muito assentou. Para além de conduzir as investigações, Mark Athias iniciou também aqui uma série de cursos teórico-práticos de moderna investigação científica, aos quais assistiram alguns médicos como Celestino da Costa, Carlos França e Azevedo Neves - uma nova geração de clínicos que irá marcar a Medicina portuguesa.

Um património rico

Por agora, ainda nada é claro sobre o futuro do imóvel. "O que está em jogo neste momento é defender ou deixar cair um monumento importante de Lisboa", afirma Vítor Serrão. O historiador considera ainda que este património deve valer por si mesmo. "Não é por haver uma finalidade concreta que este conjunto tem de ser defendido; tem de ser defendido por ter uma valia tal que o derrubamento de uma parte ou totalidade estaria a pôr-nos mais pobres", conclui.

Também o antigo director do museu de arte dos doentes, Victor Freire, partilha desta opinião. "É realmente um erro em Portugal as pessoas fazerem depender uma classificação de uma função futura", defende. Sugere o caminho inverso: o conjunto deve ser classificado pelo interesse que tem, podendo depois ser rentabilizado por via de implantação de um museu "dedicado às neurociências, à História e à história da Psiquiatria, à memória da vivência dos doentes e à arte dos doentes".

Quanto à possível aprovação da candidatura, a historiadora Raquel Henriques da Silva, não tem dúvidas: "A sua aprovação permitirá preservar e valorizar um património hospitalar único e continuar o trabalho de requalificação do panóptico e a valorização dos acervos ligados às práticas artísticas de doentes mentais, incluindo os indispensáveis fundos documentais relacionados". Classificados, os edifícios seriam protegidos e poderia iniciar-se um processo de requalificação das estruturas mais degradadas. "A boa decisão nesta matéria ajudará a equacionar soluções para patrimónios conventuais de idêntica importância histórica", acrescenta.

Mas, por enquanto, foquemo-nos na herança deste espaço. "Há a história seguinte, a salvaguarda do trabalho e da memória do Miguel Bombarda", termina Raquel Henriques da Silva.

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