Governo afasta Manuel Maria Carrilho do cargo de embaixador da UNESCO

Ex-ministro lança livro de artigos sobre a crise cuja promoção é relacionada com a demissão. MNE diz que é uma rotação diplomática "normal". Carrilho diz que soube "pela Lusa"

A hipótese de demissão já tinha sido noticiada há seis meses, mas só ontem foi consumada. Manuel Maria Carrilho foi substituído nas funções de embaixador da UNESCO, numa rotação diplomática "normal", segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). A demissão foi revelada no mesmo dia em que o ex-ministro da Cultura lançou um livro agora promovido pela editora como "o livro que demite Manuel Maria Carrilho".

Ao PÚBLICO, o socialista disse ter sabido "da demissão pela notícia da Lusa" e recusou fazer comentários. Mas a assessoria de imprensa do MNE afirma acreditar que Carrilho foi informado de que terminaria funções e justifica a substituição com o "tempo normal" de permanência neste tipo de cargos. Nomeado em Abril de 2008 como representante de Portugal para embaixador da UNESCO (organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), Carrilho será agora substituído pelo embaixador Luís Castro Mendes no âmbito de uma rotação diplomática - a mesma forma usada na sua nomeação.

A notícia, divulgada ao final da manhã pela Lusa, surgiu no mesmo dia em que foi para as bancas o livro E Agora? Por uma nova República, da Sextante, uma análise às causas e efeitos da actual crise e que reúne textos publicados no Diário de Notícias nos últimos três anos. Ao início da tarde, a editora divulgava uma nota sobre o lançamento do livro em que relacionava a demissão do ex-deputado socialista com a publicação da obra. A revelação da demissão de Carrilho surge também dois dias depois de uma entrevista ao Expresso em que o socialista critica projectos como o computador Magalhães e o programa Novas Oportunidades, bandeiras eleitorais de José Sócrates.

Questionado sobre se considera a demissão como resultado da entrevista, Carrilho disse que "as evidências não precisam de resposta". Ao PÚBLICO, a assessora de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Paula Mascarenhas, acredita que o ex-ministro foi informado de que terminaria as suas funções no âmbito do movimento diplomático. Quanto aos motivos para a saída, Paula Mascarenhas alega que a substituição se enquadra no tempo "normal" de permanência neste tipo de funções que é, "em regra, entre dois anos e meio e quatro anos". Embora não haja um período fixo para este tipo de mandatos diplomáticos, certo é que Ferro Rodrigues, por exemplo, cumpre já o seu quinto ano como embaixador da OCDE em Paris.

Um dos motivos que terão levado o Governo a equacionar o afastamento do ex-ministro do cargo, noticiado há seis meses pelo Expresso, estaria relacionado com a recusa de Carrilho em votar no ministro da Cultura egípcio, Farouk Hosni, para o cargo de director-geral da UNESCO, como pretendia o Estado português. A assessora de imprensa do MNE rejeita relacionar este caso com a saída de Carrilho e afirma que a situação foi "tratada adequadamente na altura".

Desta rotação diplomática consta também a proposta de nomeação do actual director-geral de Política Externa do MNE, Nuno Brito, para a chefia da Embaixada de Portugal em Washington, de onde sai João de Vallera para a Embaixada de Londres. Francisco Ribeiro de Menezes, até agora chefe de gabinete de Luís Amado, vai chefiar a Embaixada de Portugal em Estocolmo, sendo substituído nas funções em Lisboa por Rita Laranjinha.

O ex-secretário de Estado da Defesa João Mira Gomes vai assegurar a representação portuguesa junto da NATO - uma escolha já conhecida há semanas -, substituindo Manuel Tomás Fernandes Pereira, nomeado para o Vaticano. Para Berna vai José Lameiras, para Sófia Vera Fernandes, para Bucareste António Antas de Campos e para Bratislava João Niza Pinheiro. A Embaixada de Nova Deli passa a ser chefiada por Jorge Roza de Oliveira, a de Montevideu por Luís Sousa Lorvão, Caracas por Mário Lino da Silva e Cidade do México por João Caetano da Silva.

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