Ex-director da "secreta" vai para a Ongoing mas conselho de fiscalização tem dúvidas

O PCP quer saber se SIED deu informações a empresas como EDP e PT e admite chamar ao Parlamento Júlio Pereira, o homem forte dos serviços de informação

Jorge Silva Carvalho, ex-director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), vai trabalhar para a Ongoing - grupo da área da comunicação social -, mas esta é uma transferência que levanta dúvidas. O Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP), presidido pelo deputado socialista Marques Júnior, propõe-se fazer "uma reflexão". António Filipe, do PCP, rotula esta transferência de "uma promiscuidade inaceitável" e não exclui chamar ao Parlamento o secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira.

Silva Carvalho demitiu-se de director do SIED em Novembro, em protesto contra os cortes orçamentais no serviço. A partir de Janeiro, vai trabalhar directamente, como assessor, com Nuno Vasconcelos, presidente da Ongoing, empresa que tem 20 por cento da Impresa (proprietária da SIC, Expresso e Visão) e tem interesses no Brasil, Angola e Moçambique.

Face à notícia, avançada ontem pelo DN, o PCP considera tratar-se de uma "promiscuidade inaceitável". "Só a informação de que terá havido informações do SIED para empresas com operações no estrangeiro, como foi noticiado, já merece esclarecimentos", disse ao PÚBLICO António Filipe, numa referência à notícia do Sol de que empresas como a EDP e a PT beneficiaram de informação do SIED.

E é à luz dessas informações que, para o PCP, "a passagem directa do ex-director do SIED para uma empresa privada como a Ongoing é de uma promiscuidade inaceitável". Para já, os comunistas vão fazer uma pergunta ao ministro da Presidência, de quem, funcionalmente, dependem o SIED e o SIS, mas não excluiu pedir esclarecimentos, no Parlamento, ao CFSIRP e a Júlio Pereira.

Contactado pelo PÚBLICO, Marques Júnior, deputado do PS e presidente do CFSIRP, afirmou que, "do ponto de vista legal", não vê "nenhuma incompatibilidade nesta situação", mas, tratando-se de "uma situação inédita em Portugal", "deve ser objecto de uma reflexão" no conselho.

Matos Correia, deputado do PSD, e João Rebelo, do CDS, desdramatizam e concordam que o essencial é Silva Carvalho distinguir entre as suas funções e os deveres de reserva e sigilo quanto ao cargo de director do SIED.

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