António Guterres e o pântano

António Guterres ficará para a história como o primeiro-ministro do diálogo. Mas, em 2001, depois de uma pesada derrota nas autárquicas, em que o PS perdeu Lisboa e Porto para o PSD, Guterres antevia um pântano. Um pântano político em que o PSD de Durão Barroso, recém-chegado à liderança, se preparava para meses de desgaste. Até ao próximo Orçamento.

Desgastado, depois de um mandato em que teve de negociar à direita e à esquerda, de novo em minoria na Assembleia da República, o actual alto comissário da ONU para os Refugiados preferiu sair. Jorge Sampaio, em Belém, apesar de dizer que a derrota nas autárquicas não justificava tão drástica decisão, optou por eleições antecipadas. Os partidos disseram que sim. "Se eu tivesse continuado no Governo, ter-se-ia dado uma situação de paralisia, uma situação pantanosa", lembrou, em 2004.

A verdade, porém, é que o poder guterrista estava gasto. Depois da vitória, sem maioria absoluta, nas legislativas de 1999, lembram hoje alguns socialistas, Guterres já fizera um segundo elenco governativo "em esforço". Com dificuldades em captar caras novas.

Os casos sucediam-se. Depois do CDS e até do PSD, o PS teve de recorrer a um parceiro de recurso - Daniel Campelo, do CDS - para viabilizar o Orçamento do Estado em 2001, o famoso "Orçamento limiano", a troco de apoios a uma fábrica de queijo. Experiência repetida em 2002.

Simbólicos foram dois casos. Em Junho, o ministro das Finanças, Pina Moura, demissionário, defendia um Orçamento rectificativo no Parlamento quando Guterres se reunia com Jorge Sampaio para tratar de uma remodelação. Também Manuela Arcanjo deixou, com estrondo, a pasta da Saúde, caída em desgraça por causa das finanças da Saúde. Simbólica ainda foi a cedência do Governo Guterres quanto ao grau de alcoolemia, após um longo braço-de-ferro com os produtores de vinho. N.S.

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