Eles estão no meio de nós

Duas das mais persistentes influências sobre o gosto indie juntam-se no Porto pela primeira vez: o festival Optimus Primavera Sound e o site Pitchfork.

"Tu e eu ouvimos mais música do que qualquer outra pessoa na história da civilização. Não quero dizer com isto que é mais do que o teu amigo ou aquele tipo no fórum que parece conhecer antes de toda a gente cada um dos CD vazados on-line que o buzz diz valer a pena, mas sim mais do que qualquer outra geração de melómanos activos que tenha precedido a nossa." Assim começava a crítica de Dominique Leone a Rejoicing in the Hands, terceiro álbum de Devendra Banhart, nas páginas virtuais da revista Pitchfork.

O texto continha vários dos ingredientes hoje tidos como marca registada do site norte-americano de crítica musical, criado em 1996 por Ryan Schreiber, fixado três anos depois em Chicago: dois parágrafos introdutórios que não abordavam directamente o disco em questão (por vezes, aliás, os discos são mero pretexto para um desvario pessoal); uma forma longa de escrita que não se preocupava com a ideia (muito em voga em meados da década passada) de que aos textos em ecrã de computador caía bem a esqualidez das palavras para que alguém se desse ao trabalho de lê-las e, assim, amontoar essa preciosa moeda chamada pageviews; um óbvio domínio da história da música (citando Fairport Convention, Bert Jansch e Vashti Bunyan como faróis de Banhart); uma atenção especial à música emergente; e uma nota final, 8,4 na escala 0-10,que sustentava a paixão colocada na escrita de Leone.

Aproximadamente dois meses depois, Banhart subia a um dos palcos secundários da edição de 2004 do festival Primavera Sound, no Poble Espanyol, em Barcelona. Com uma enchente de 40 mil pessoas, sobretudo para testemunhar euforicamente o regresso dos Pixies, Banhart ofereceria um concerto magnífico ao cair da tarde para não mais do que cem pessoas. Já então o Primavera apostava numa programação que era um sonho molhado para qualquer alma que vivesse com os ouvidos encharcados em sons mais alternativos, e convidava à livre circulação entre palcos, numa atitude de permanente descoberta - e de ansiedade muito generalizada de não saber o que fazer a tanto concerto com tão pouco tempo.

Em simultâneo, bandas como Pixies e Primal Scream, ou Sonic Youth e White Stripes, eram facilmente cativadas por um festival que festejava os seus, a música indie, sem cedências ao mainstream, e que erguia em ombros estes casos mais mediáticos como vitórias sobre a futilidade, reclamando para aquele ambiente e aquele público a sua proveniência e confortando as bandas de que não tinham vendido a alma do diabo pelo caminho. Era o isco perfeito para Pixies e outros que tais: saberem-se adulados por um público menos atreito a modas e poderem acreditar que, apesar de terem crescido para lá das suas expectativas, não haviam perdido contacto com putos iguais a eles, capazes de passarem vidas inteiras à procura do disco perfeito.

Crescimento

Apesar das escassas dezenas de pessoas no culto a Devendra, esse ano de 2004 seria o último a ser comportado pelo crescimento vertiginoso do Primavera no Poble Espanyol. Depois de algumas primeiras edições em que o Primavera era um festival sem casa, distribuindo concertos por várias salas da cidade mas sem uma identidade clara, a estreia do actual formato em 2001 demoraria apenas quatro edições a rebentar pelas costuras e a impor-se como uma das mais importantes celebrações da música nova em todo o mundo, passando de oito mil para 40 mil pessoas, atraindo cada vez mais gente chegada de mochila às costas de toda a Europa.

Na mesma altura, a Pitchfork dava também o seu primeiro grande salto. O site criado por Schreiber, um antigo funcionário de uma loja de discos que para ali despejara todo o seu amor por bandas que não furavam até à imprensa mais popular, começara por atrair lentamente outros colaboradores e a cativar um tráfego crescente de gente seguidora do mundo indie que sorvia cada palavra de Schreiber e seus apóstolos como se na sua escrita imperassem a verdade e a justiça a pequenas bandas desconhecidas ou demasiado ignoradas. A obsessão pessoal de Schreiber tornara-se uma missão colectiva. Aos poucos, a obrigação do autor do texto, chamar a atenção para música que merecia mais ouvidos e pagar a dívida para com genialidades obscuras, abriu-se para incluir mais um dever - agora para com um público que esperava da Pitchfork o veredicto sobre discos importantes do mundo indie e corria assim que o site apontava na direcção de novos nomes nos quais investir horas e afectos.

Nesse mesmo 2004 ouvir-se-ia o tiro de partida para a semi-profissionalização da Pitchfork. Tomando conhecimento de que Schreiber procurava alguém que o pudesse ajudar a cuidar da avalanche de afazeres diários que o site então exigia, Christopher Kaskie, vindo de uma outra publicação independente de Chicago, escreveu um mail ao fundador manifestando a sua convicção de que poderia providenciar a ajuda procurada. Dividiram o trabalho em dois: noites e madrugadas cabiam a Schreiber, Kaskie ficava com manhãs e tardes para se ocupar de todas as áreas de negócio, assumindo a tarefa de pôr a Pitchfork a circular cada vez mais de boca em boca e a tirar proveitos disso.

O caso Arcade Fire

O numeroso contingente de rock independente norte-americano a viajar até à Catalunha denunciava uma tendência natural num festival de rock, mas também a descoberta de um espelho entre a programação defendida pelo Primavera Sound e as bandas elevadas aos píncaros pela Pitchfork. A primeira prova inequívoca chegaria igualmente com o primeiro momento de explosão da influência do site. Até 12 de Setembro de 2004, dia em que a Pitchfork publicou a crítica de David Moore a Funeral, com uma estratosférica nota de 9,7, os canadianos Arcade Fire eram apenas um bando de miúdos que tinha gravado um bom disco que ninguém ainda tinha ouvido. A crítica, que terminava dizendo "talvez nos tenha levado demasiado tempo a chegar a este ponto em que um álbum é finalmente capaz de reabilitar na totalidade a genuína origem da putrefacta palavra "emocional"", teve efeitos imediatos e concretos: as encomendas choveram no dia seguinte (o Washington Post citava um lojista que identificava esse como o momento em que passara a seguir as críticas do site com a mesma atenção com que um corretor acompanha o canal CNBC), a primeira edição esgotou em três tempos. Independentemente da qualidade das canções de Win Butner e Régine Chassagne, o fenómeno fora criado quase instantaneamente, como se à crítica bastasse adicionar duas gotas de água. Sem espanto, os Arcade Fire foram um dos grandes cabeças de cartaz do Primavera Sound de 2005, na sua primeira edição realizada no Parc del Fòrum.

Esse reconhecimento mútuo seria alimentado de uma forma oficial a partir de 2008, quando a Pitchfork passou a comissariar e programar um dos muitos palcos do Primavera Sound. O imenso poder de legitimação de ambos isoladamente tornava cada marca ainda mais poderosa quando avalizada pelo outro. Para o Primavera, claramente, era a confirmação de que a sua reputação batia no tecto no que dizia respeito ao altar do mundo indie, ao mesmo tempo que multiplicava a sua penetração internacional. Para a Pitchfork, era uma forma simples de contactar com uma crescente comunidade de frequentadores do site vindos de fora da América do Norte - que actualmente representa 40% do tráfego. E o passo seguinte após o arranque do seu próprio festival em Chicago, em 2005. "Nessa altura", explica Kaskie, "quisemos criar um cenário real onde pudéssemos celebrar a música que cobríamos diariamente e encontrar-nos com as pessoas que nos lêem e estão familiarizadas com a música sobre a qual escrevemos." Era quase como se, colectivamente, Schreiber e Kaskie quisessem ser beliscados pela imensa legião anónima que fazia lei dos seus entusiasmos, como se faltasse a confirmação derradeira de que aquilo que se passava no ciberespaço, alojado num qualquer servidor, tinha, afinal, uma dimensão palpável, real.

"Faz tudo parte da mesma ideia de celebrar a música e expor as pessoas àquilo que fazemos através da música e mostrar-lhes as coisas extraordinárias com que contactamos, ao invés de comprarmos espaço publicitário", completa Kaskie. Apesar de hoje em dia Schreiber já pouco escrever - assumindo uma pomposa posição de CEO, enquanto Kaskie aparece no organograma como presidente da Pitchfork -, o objectivo de mostrar a música que os entusiasma permanece. O contacto que o Primavera lhes proporcionou com música europeia e o Festival Pitchfork em Paris começado em 2010 servem também de viagens prospectivas para levar de volta ao site "coisas totalmente novas".

O caso Morrison

Alimentando de forma indirecta as suas actividades, a grande diferença nas montras que montam para a música emergente e para os heróis que lhe inspiraram o aparecimento é, naturalmente, a ausência de um discurso crítico no Primavera Sound. No festival, as escolhas fazem-se no cartaz, e quem fica de fora fica simplesmente de fora. No entanto, é altamente improvável que nos próximos anos o Primavera acolha num dos seus palcos Travis Morrison, ex-vocalista dos Dismemberment Plan, arrasado com uma crítica pontuada com um redondinho 0,0 pela Pitchfork. Para Chris Dahlen, a audição de Travistan equivaleu a oito agonizantes horas ao volante do carro sozinho com Morrison. O músico, por seu lado, acusou a Pitchfork de homicídio artístico: as vendas do seu disco a solo secaram no dia seguinte, as rádios começaram a assobiar para o ar, os compromissos de concertos foram pelo ralo e a sua carreira parou em 2009. Kaskie diz-nos "não haver arrependimentos alguns", mas admite que é necessário sensibilizar quem escreve na Pitchfork para as consequências reais daquelas linhas atiradas para o poderoso amplificador da revista.

Este poder imenso, que facilmente poderia redundar em soberba e que tem valido um coro que grita repetidamente "arrogância" a cada novo texto que pinga on-line, pouco pode, no entanto, contra a relação de confiança estabelecida com uma enorme comunidade de leitores. Hoje em dia, ninguém ignora que uma das coisas que qualquer cabecilha de editora faz em terras norte-americanas pela manhã é ligar-se à Pitchfork e perceber os efeitos que aquelas palavras terão no seu dia: ou porque um grande elogio pode significar reforçar rapidamente os stocks de um artista ou porque deve colocar-se de imediato em campo e contratar uma descoberta do site a que ninguém prestara ainda atenção. Ou, como referia um executivo da Merge ao Washington Post, ter de passar o dia a consolar algum artista pelo gancho de esquerda aplicado em cheio no ego do músico. A revista Wired resumiu tudo na expressão "Pitchfork Effect". Kaskie manifesta reservas. Não recusa o impacto da Pitchfork na música actual, mas não simpatiza com a ideia de que a revista pode "fazer um artista", preferindo a mais cautelosa afirmação de que "é maravilhoso quando somos a plataforma para a música de que gostamos ser apresentada a um grupo mais alargado de pessoas - mas não reclamamos créditos sobre a carreira de alguém".

Este peso, no entanto, não surpreende os dois impulsionadores da Pitchfork. "Preparámo-nos para ser uma revista séria e levámos sempre tudo muito a sério. Sentimos que se continuássemos a concentrar-nos naquilo em que éramos realmente bons, a espalhar a palavra e a fazer um bom trabalho, o público aproximar-se-ia e entregar-nos-ia a sua confiança. A forma como crescemos foi muito intencional", argumenta Kaskie. "Ninguém se questiona "como é que chegámos aqui?". Sabemos perfeitamente como o fizemos: com muito trabalho, muita determinação e uma visão clara." O espanto chega por outra via: no final do próximo mês, a Pitchfork deverá chegar a um staff de 47 trabalhadores.

Nada disto, refere o presidente da Pitchfork, é especialmente novo. "A novidade", acredita, "é que quando todos começaram a querer reposicionar-se para atrair mais público querendo ser especialistas em tudo, na Pitchfork queríamos ser especialistas em música". Por isso, enquanto as regras ditavam que os textos deviam encurtar, que já ninguém lia, que interessava mais o vestido de Rihanna do que a malha de guitarra de J Mascis e que a imagem deveria subalternizar as palavras, a Pitchfork assumia uma postura de "velha escola": os textos eram para ler, não eram para ser encaixados nos buracos das imagens. "Acreditámos sempre que os artistas dedicam muito tempo a criar a sua arte e nós devemos fazer o mesmo ao reflectir sobre as suas obras. Encurtar textos e torna-los mais digeríveis nunca nos interessou." A prova de que esta linguagem não é autista e conquista reconhecimento fora do site é o alargamento da carteira de clientes de críticos como Amanda Petrusich, ali iniciada mas entretanto publicada também no New York Times, na Spin e na Paste.

Blur e Savages

Apesar do foco na música emergente e dita indie, tanto a Pitchfork como o Primavera Sound não fecham as portas a nomes mais associados ao mainstream. Este ano, o Primavera tem nos Blur um dos seus grandes trunfos. A linha é estabelecida sem dificuldade por Kaskie. Tudo aquilo que foge à orientação de um e outro deve apenas respeitar a ideia de promover boa música, e nunca ser ditado pelo crescimento nos números (bilhetes vendidos ou acessos, a lógica é a mesma). O sucesso, por estes lados, mede-se em qualidade musical. "Antes, como agora, queríamos garantir que não estávamos a falar dos melhores artistas do mundo apenas para garantir tráfego. Queremos discutir com o mesmo fôlego algo muito grande e algo muito novo e pequeno. Por isso, podem ler-se histórias sobre Jay-Z ou Ty Segall e nenhuma delas parecerá deslocada."

Ausente da primeira edição do Optimus Primavera Sound portuense, a Pitchfork traz já em 2013 uma respeitável delegação de bandas a que faz questão de associar o seu nome. Prova de confiança por parte do festival - mas também "prerrogativa" de qualquer evento em que o site se veja metido -, as escolhas reflectem unicamente os seus entusiasmos mais recentes. Por ali, acredita-se que "Savages e Melody"s Echo Chamber são os concertos que têm uma mais alta probabilidade de deixar toda a gente boquiaberta". A excitação é muita. Chegar ao Primavera, diz Kaskie, é como um encontro renovado entre almas gémeas: sabem que se vão olhar ao espelho, mesmo se ignoram a imagem que por lá encontrarão.

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