Atenção! Armada de veteranos neste festival com desejo de futuro

O Optimus Primavera Sound privilegia o sentido de futuro. Olhamos para o cartaz: Blur, Breeders, Nick Cave, My Bloody Valentine, Swans, Dinosaur Jr., Meat Puppets. Hmmm. Haverá algo errado nesta lista? Nada. Não são velhos estes veteranos.

Costuma dizer-se assim: o Primavera Sound não é um festival igual aos outros. Nascido em Barcelona como pequeno ajuntamento no Poble Espanyol e determinado a unir à sua volta música que representasse o mais significativo, vital e marginal do seu tempo, o Primavera cresceu muito: do Poble Espanyol para o bem maior Parc Del Fòrum, alargando-se daí, no ano passado, ao Parque da Cidade, no Porto. A sua matriz, porém, manteve-se. No Primavera Sound mostra-se a novidade, apontam-se caminhos, agrupam-se os nomes que farão a genealogia da música popular urbana no futuro. Este ano, o segundo em que o festival se realiza também no Porto, nada mudou. Atente-se no cartaz: Blur, The Breeders, Nick Cave & The Bad Seeds, My Bloody Valentine. E ainda Dead Can Dance, Swans, Dinosaur Jr., Meat Puppets ou Daniel Johnston. Hmmm... Há algo errado nesta lista. Isto é tudo gente que anda por aí há 20, 30 anos. Gente que já fez história. Bandas que são referência para o presente de que se fará o futuro da música popular urbana. Enfim, o passado que ficou lá atrás.

É isto, afinal, o Optimus Primavera Sound? Um parque geriátrico? Cuidadinho com a expressão. Nick Cave, cinquentão de sangue na guelra, pode gritar-nos maldições do Velho Testamento com a virulência de quem fundou os Birthday Party. J. Mascis, dos Dinosaur Jr, é bem capaz de soltar uma gargalhada alarve enquanto nos racha a cabeça com a fiel guitarra eléctrica (e até de fazer disso um solo). Michael Gira fará o mesmo que Cave e Mascis, e com verve apocalíptica. Estes velhos não são velhos. É isso que nos diz o Optimus Primavera Sound. Aqui não se juntam "velhinhos" no cartaz na esperança de que os "velhinhos", por acumulação geracional, chamem muito público e dêem ares de respeitabilidade ao acontecimento. Isto é outra coisa: é colocar a memória no centro da acção. Coisa nova, agora que o rock tem mais de seis décadas de história. E coisa muito velha: já os Rolling Stones levavam o pioneiro Chuck Berry em digressão e, bem mais perto do nosso tempo, Kurt Cobain revelava à geração MTV os Meat Puppets (que estarão no Primavera, com álbum novo, 6ª, dia 31, 0h25) e vestia t-shirts de Daniel Johnston (6ª, 20h) para espalhar a palavra. Não são velhos estes veteranos.

Na verdade, este agrupamento de tantos nomes do passado num festival virado para o futuro sinaliza-se algo diferente - isto quando a juventude deixou há muito de ser atributo essencial para dar sentido à cultura pop rock. Porque a juventude, convenhamos, é sobrevalorizada. Nomes como Blur, Nick Cave, My Bloody Valentine ou Swans servem de guias espirituais, vivíssimos. São faróis a dar sentido à fragmentação operada no cenário musical (a Internet abriu o mundo e eliminou consensos) enquanto, paradoxalmente, participam também nessa fragmentação: o agora são as paisagens gélidas, sintéticas, dos Dead Can Dance (5ª, 30, 22h10) e o psicadelismo electrónico, febril de Dan Deacon (sábado, 1, 1h20), são os ainda futuristas Silver Apples, que nasceram nos anos 1960 mas parecem indicados para 2035 (que privilégio seria vê-los em cartaz), e uma Melody"s Echo Chamber que surge para nos fazer acreditar que no presente brilha o charme luminoso da Califórnia de há quatro décadas. Nomes como estes são "a" genealogia, mas também o presente.

Os Swans já editaram dois álbuns desde 2010 e, neles, não mostram sinais de envelhecimento. Os My Bloody Valentine regressaram dos mortos com um disco, mbv, que tem tudo o que nos interessa neles - como se não tivessem passado 22 anos desde Loveless. Os Dinosaur Jr. voltaram a ter Lou Barlow na formação e têm andado numa roda viva desde 2007 - discos, digressões, muito respeito por parte de quem os vê e ouve. E depois há os Blur. Que são outra coisa - a tangente entre a credibilidade histórica e a disseminação transversal na memória. Recentemente, líamos algures uma reportagem sobre a passagem da banda pelo festival de Coachella, na Califórnia. "Estes gajos ainda vão ser grandes", comentou um americano distraído quando ouviu Song 2. Tal ignorância é divertida. E sintomática. Afinal, o passado é o novo presente. E até parece que os Blur podem gravar um álbum novo (foi Damon Albarn que levou à especulação em Hong Kong, quando deixou escapar que a banda iria aproveitar uns dias de descanso para se meter em estúdio).

O passado mora ao lado

Mas não é no novo álbum que pensaremos quando daqui a precisamente uma semana Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree subirem ao palco principal do festival. Será tempo de celebração. Nada de novo. A música pop vive disso. O Primavera Sound nunca a pôs de parte. O cartaz das edições anteriores não nos deixa mentir. Há um ano, no Porto, vimos o espectáculo delirante dos Flaming Lips, os seus primos Mercury Rev, e deparámo-nos com uns Suede em modo greatest hits, antes do álbum de regresso. Há dois anos, em Barcelona, lá estiveram também os Flaming Lips ou os Swans (que veremos nesta edição, 6ª, 31, 21h). E também os Belle & Sebastian, ícones indie da década de 1990, os Echo & The Bunnymen, estetas da pop pintada a negro de Liverpool, anos 1980, o mestre John Cale, os míticos Suicide ou os Einstürzende Neubauten, nome indispensável da música industrial, em actividade e sem deixar de carregar na corrosão pop há mais de 30 anos. A memória sempre andou por aqui. Em 2002, na segunda edição do festival, encontrávamos em cartaz os Pulp ou os Violent Femmes. No ano seguinte, Tom Verlaine e os seus Television.

Em 2012, os cabeças de cartaz, Nick Cave & The Bad Seeds (5ª, 30, 23h35), Blur (6ª, 31, 1h25) ou My Bloody Valentine (sábado, 1, 1h20), têm uma longa história atrás de si - infelizmente, aquele que tinha a história mais incrível de todas, Sixto Rodriguez, cancelou a presença no festival, culpa da idade e da saúde frágil.

Num longo artigo publicado recentemente na Spin, em que as Breeders contam a história de Last Splash, álbum-fenómeno da banda editado há precisamente 20 anos que trazem ao Primavera Sound (5ª, 30, 21h), Kim Deal comentava: ""Alternativo" foi uma expressão cunhada pelos média para conseguir mais dinheiro dos seus anunciantes. Nós comentávamos: "O que se passa? Ninguém nos chama "[rock] alternativo". Porque é que continuam a pô-lo na capa das revistas? Na verdade, sabe quem diz "música alternativa"? A minha mãe. E todas as outras pessoas em Dayton [Ohio, a cidade das irmãs Kim e Kelley Deal]. Todos os camionistas e os "cowboys": "Eu digo-te a que é que isto é alternativo. À boa música."

Em 2013, música alternativa soa, de facto, a coisa antiga e ultrapassada. Num mundo musical de mil alternativas, o que quer dizer? Nada, na verdade. Recuperamos outra citação do mesmo artigo, esta de Carrie Bradley, violinista em Pod e Last Splash: "O ar como que estava mais puro [em 1993] - pré-irónico, tal como o entendemos agora, com uma atitude que era anti-comercial mas intencional, política sem ser cínica, com espaço tanto para divertimento quanto para dignidade. Depois tudo mudou novamente." Esqueçamos, obviamente, a ideia do "naquele tempo é que era" e concentremo-nos no essencial. Num tempo em que um homem tem dificuldade em deixar crescer um bigode como apêndice sério, porque, como sabemos, todos os bigodes pós-2006 não são mera escolha de decoração facial, mas um comentário irónico à bigodaça farfalhuda das décadas de 1970 e 1980, escapar ao filtro da ironia é tarefa difícil. A entrega apaixonada não é fácil de conseguir no tempo do não-comprometimento. A velharia cheia de vida em destaque no Optimus Primavera Sound permite que, por uma vez, nos juntemos todos, cofiando o bigode irónico ou sincero, aplaudindo aquilo que, na verdade, não é alternativa a nada: é a história que interessa. E que o Primavera Sound, "palco de uma diversidade enriquecedora, mas com centro comum - música exigente, música das margens, música que desafia ou se homenageia porque desafiou um dia", como escrevemos no ano passado -, faz por preservar com o merecido destaque.

Elenquemos. Os Blur, representantes máximos do brit pop mas que, ao contrário dos rivais Oasis, foram maiores do que ele (são os últimos da linhagem de cronistas britânicos e experimentalistas sónicos iniciada com os Kinks), andam a percorrer o mundo a mostrar clássicos absolutos como Parklife, This is a low, The universal ou Beetlebum. Os My Bloody Valentine continuam a furar os tímpanos de um público agradecido pela torrente de electricidade, pelo rock liquefeito e imediatamente colocado em ponto de ebulição que se tornou matéria influente nos locais mais insuspeitos - ouvimo-los hoje tanto em bandas rock quanto em manipuladores electrónicos fechados no quarto. Os Swans de Michael Gira não atenuaram em nada a sua ferocidade e, com The Seer, álbum de 2012, deram continuidade a uma discografia recente que se equipara ao período clássico da década de 1980. As Breeders, reunidas com a formação que gravou Last Splash (as irmãs Kim e Kelley Deal, a baixista Josephine Wiggs e o baterista Jim McPherson), celebram o disco histórico em modo instalação: já sabemos tudo o que vão tocar e sim a Cannonball, sim a No aloha, sim a Divine hammer, sim a Driving on 9. E ainda há Nick Cave, que conduziu os seus Bad Seeds a um novo jogo de tensão, mais maduro, mais atmosférico, mas habitado pelos demónios de sempre (Push The Sky Away, o último álbum, é um tratado de amadurecimento rock"n"roll); e ainda veremos Daniel Johnston, homem de uma fragilidade tocante, sonhador em busca da glória pop de Beatles e Beach Boys que, naturalmente, nunca alcançará - mas como recusar True love will find you in the end?

Velharias? O passado mora ao lado e estamos impregnados dele. Não podemos, não queremos apagá-lo. Há aqui demasiada vitalidade. Desperdiçá-la seria absurdo.

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