Silva Peneda quer abrandamento da austeridade e mais atenção aos parceiros sociais

Ex-ministro atribui às instituições internacionais da troika “uma quota parte da responsabilidade na estratégia que foi delineada e que tem que ser repensada”.

Presidente do CES considera que "seria ainda pior" se houvesse uma crise política a breve prazo. Daniel Rocha

O presidente do Conselho Económico e Social (CES), Silva Peneda, defendeu este domingo um abrandamento da austeridade que permita a retoma do investimento e apelou ao Governo e à troika que “escutem mais” os parceiros sociais.

“Julgo que a dose de austeridade tal como foi, foi excessiva. O país empobreceu demais, a estrutura económica foi fortemente abalada, e preocupa-me muito, neste momento, o decrescimento do investimento. Temos que criar situações para a retoma do investimento e deve ser esse o foco essencial no tempo que se avizinha, porque mais austeridade, com a dose excessiva com que foi aplicada até agora, levou foi a esta situação”, afirmou o presidente do CES.

Silva Peneda falava aos jornalistas no Porto, à margem da sessão de encerramento do XIII Encontro Nacional de Estudantes de Economia e Gestão, onde participou.

Nada surpreendido com o agravamento do diagnóstico do país traçado na sequência da 7.ª avaliação da troika, que diz ter confirmado os alertas já lançados pelo CES nos seus pareceres, o ex-ministro do Emprego diz impor-se agora “um tempo de reflexão”, em que sejam “mais escutadas as vozes e anseios dos parceiros sociais”.

“Neste momento, mesmo com a troika, não deixa de ser impressionante que tanto patrões, como sindicatos - que são quem está na economia real e conhece o quotidiano da vida das empresas e dos trabalhadores - têm exactamente o mesmo discurso e a mesma visão. Portanto penso que devem ser mais escutados do que têm sido até aqui”, disse.

Salientando que a procura da “melhor solução” passa, “fundamentalmente, por alguns compromissos a nível político e também com os parceiros sociais”, José Silva Peneda atribui às instituições internacionais - nomeadamente à Comissão Europeia e ao Fundo Monetário Internacional -- “uma quota parte da responsabilidade na estratégia que foi delineada e que tem que ser repensada”.

“As instituições internacionais não tiveram em conta as características da economia portuguesa, que é diferente da economia alemã ou italiana. Quando se aplica um programa num determinado país é preciso conhecer bem essa realidade e o principal erro das instâncias internacionais foi desenhar um projecto e um programa para uma economia que não tem a ver com a realidade que, de facto, existe em Portugal”, sustentou.

Expectante relativamente às linhas da estratégia orçamental para os próximos três anos, a apresentar pelo Governo durante o mês de Abril, o presidente do CES admite, até, que se mantenha a mesma “terapêutica”, mas considera essencial uma alteração da “dose”.

“O antibiótico pode ser o mesmo, agora a dose é que pode ser diferente e, em vez de se comprar uma caixa de 50 comprimidos, só comprar uma de 20”, afirmou, reiterando que foi a “muito excessiva dose de austeridade” que “levou a que não se atingissem os objectivos que estavam pré-fixados”.

Questionado sobre a probabilidade de uma crise política a breve prazo, Silva Peneda considerou que “seria ainda pior se esse cenário se viesse a concretizar” e defendeu que o momento impõe um reforço dos “compromissos e entendimentos”, e não “clivagens”.
 

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues