As turmas têm nomes históricos: Willy Brandt, Olof Palme e François Miterrand. Os oradores são os seniores do partido. A bibliografia é a sério. Chama-se Universidade de Verão do PS e reúne 110 jovens.
Aristóteles, Marx, Hume, Tocqueville. Estes são alguns dos clássicos recomendados aos 110 jovens do PS que iniciam nesta quinta-feira a Universidade de Verão deste partido, que decorre até domingo em Évora e que será encerrada pelo secretário-geral, António José Seguro.
A Universidade de Verão, agora retomada pelo PS, funciona em moldes normais destas iniciativas em Portugal: alguns dirigentes de topo e convidados da academia ou do mundo intelectual fazem palestras, ou seja, dão aulas a um conjunto de jovens alunos militantes do partido. Assim, por Évora passarão nomes como Edite Estrela, Viriato Soromenho-Marques, Capoulas Santos, Elisa Ferreira, João Proença, Vital Moreira, Maria João Rodrigues, Correia de Campos, Adelino Maltez e Ana Gomes.
Mas no final das palestras, haverá uma segunda parte da aula, em que os alunos irão debater os temas, nas três turmas em que estão organizados e que recebem o nome de três referências da social-democracia europeia: Willy Brandt, Olof Palme e François Miterrand. Esses momentos de debate serão coordenados por monitores e é suposto que os alunos já tenham lido alguma da bibliografia previamente recomendada.
Esta bibliografia foi estabelecida de acordo com as propostas feitas pelos responsáveis e monitores da Universidade de Verão: Carlos Leone, investigador do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa, Luís Filipe Figueiredo, especialista em Ciência Política, Diogo Cabrita, médico, Paulo Matos, actor, Ricardo Gonçalves, ex-deputado, assim como pelos dirigentes Jorge Seguro Sanches e Álvaro Beleza.
Ao PÚBLICO, Álvaro Beleza explicou a ideia de fornecer uma bibliografia de apoio e encarregar monitores de coordenarem debates. "Pretendemos criar uma tradição de formação política", afirmou Álvaro Beleza, defendendo que é preciso começar a aprofundar e a preparar os militantes: "Em Portugal, na política, muita gente fala do que não sabe e pela superfície. É preciso ir buscar gente com cultura e que os políticos estudem."
O PS tem assim um modelo diverso do usado pelo PSD há vários anos na sua Universidade de Verão, que decorre também até domingo em Castelo de Vide. "Além da documentação que distribuímos em cada sessão, os convidados aconselham livros para futuras leituras", explicou ao PÚBLICO o eurodeputado Carlos Coelho, responsável pela Universidade de Verão do PSD.
Clássicos e referências
Quanto às escolhas de autores da bibliografia do PS, Álvaro Beleza explica que livros como A Política, de Aristóteles, tinham de constar, porque "Aristóteles é básico para toda a definição de política". Quanto ao Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels - o primeiro livro da lista -, Álvaro Beleza afirma: "Tinha de estar, Marx é a raiz dos partidos socialistas e sociais-democratas." E afirma que o eclectismo de escolhas leva também a que surjam clássicos mais recentes, como a Teoria Geral da Política, de Norberto Bobbio, "que inspirou Anthony Giddens e que é um socioliberal".
Dos clássicos surgem ainda Benjamin Constant (A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos), David Hume (Ensaios Morais, Políticos e Literários), Alexis de Tocqueville (Da Democracia na América) e Max Weber (A Política como Profissão).
Mas a diversidade é grande. Surgem obras como Getting to Yes, Negotiating Agreement Without Giving in, de Roger Fisher e William Ury, um livro do princípio dos anos 1980 sobre negociação política. Ou o mais recente O Espírito da Igualdade, de Richard Wilkinson e Kate Picket, sobre como a desigualdade económica corrói a democracia. Ainda sobre a crise da democracia surge Sobre a Balsa da Medusa, de Anselm Jappe. E sobre economia política e a cultura do risco O Pensamento Conservador, de Albert Hirschman.
Já sobre a União Europeia e a crise que esta atravessa surge Um Ensaio sobre a Constituição da Europa, de Jurgen Habermas, O Federalista, de Alexandre Hamilton, James Madison, John Jay, e Dividing Lines Between the European Union and Its Member States, de Stephen Sieberson. Já numa perspectiva portuguesa, é aconselhado A Europa segundo Portugal, coordenado por José Eduardo Franco e Pedro Calafate.
Recomendados são ainda os livros A Direita e as Direitas, de Jaime Nogueira Pinto, Classe, "Status" e Poder, de Hermínio Martins - um estudo sociológico sobre o poder e as elites em Portugal -, e Constituição & Política, do constitucionalista da Universidade do Porto Paulo Ferreira da Cunha.
Refira-se ainda que na bibliografia não faltam quatro autores que são quatro referências do PS: Vitorino Magalhães Godinho - Portugal, a Pátria Bloqueada e a Responsabilidade da Cidadania; Mário Sottomayor Cardia - Socialismo sem Dogma; Eduardo Lourenço - A Esquerda na Encruzilhada ou fora da História; e Medeiros Ferreira - Ensaio Histórico sobre a Revolução do 25 de Abril.

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