A afirmação “O Marcelo sabe tudo para a frente” é da social-democrata Leonor Beleza, mas a biografia de Marcelo Rebelo de Sousa lançada esta quarta-feira revela um homem que, ao longo de décadas, influenciou de forma decisiva a história política do país.
A obra Marcelo Rebelo de Sousa, da autoria do jornalista da revista Sábado Vítor Matos, é uma biografia consentida de Marcelo e retrata, ao longo de mais de 600 páginas, o homem que foi secretário de Estado, ministro, director de jornal e presidente do PSD, em 1996. Marcelo, no entanto, não esteve presente na sessão de lançamento do livro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Professor universitário catedrático, conselheiro de Estado e comentador televisivo, Rebelo de Sousa é, segundo o autor, um homem profundamente católico, que escreve e lê muito, dorme pouco, e que é reconhecido como um professor universitário brilhante. Mas é, na verdade, muito "mais complexo" do que isso.
A apresentação da obra foi feita pela social-democrata Leonor Beleza e pelo jornalista Vicente Jorge Silva. Leonor Beleza considerou que “Marcelo recebeu muito da família e da educação que teve, mas que, sobretudo, trabalha, esforça-se e constrói-se. Isso é mérito dele. Trabalhou sempre arduamente, esforçou-se sempre arduamente”.
A presidente da Fundação Champalimaud referiu ainda um amigo com “qualidades excepcionais” que se "ultrapassa a si próprio". E que tem “um dom que conquistou de influenciar” as pessoas, “traduzir as linhas e as entrelinhas” e desconstruir “o que se passa na cabeça dos actores de quem fala”.
Quando sentados lado a lado na Faculdade de Direito, ainda estudantes, já a social-democrata Leonor Beleza identificava nele a característica “excepcional” de saber a matéria ainda antes de esta ser leccionada. Foi sempre assim: “O Marcelo sabe tudo para a frente”.
“Destapa a panela e permite-nos compreender quais são os ingredientes. Não é o que é que acontece, é por que é que acontece e o que vai acontecer e, por essa via, exerce de facto um enorme poder de influência e de condicionamento”, disse também Leonor Beleza.
Das suas qualidades mais pessoais, “a amiga Leonor”, como é referida no livro, destaca a “profunda lealdade” e a “solidariedade compulsiva” de Marcelo para com os amigos, as instituições, mas também para com pessoas desconhecidas e que lhe pedem ajuda, como o caso de estudantes que se confrontaram com a dificuldade de concluir o curso por motivos financeiros.
Já o jornalista Vicente Jorge Silva optou por dirigir uma “carta aberta” a Marcelo, descrevendo os dez anos que trabalharam juntos no Expresso como “uma das fases mais gratificantes da vida”.
Uma “paixão”, disse Vicente Jorge Silva, pelo “jornalismo e pelo activismo político” a que Marcelo nunca conseguiu resistir. A essa tentação aliou sempre outras: "As cascas de banana atiradas aos pés alheios", a “traquinice” e “o culto irresistível da intriga” que lhe valeram, ao longo de quase 64 anos de vida, vários “ódios de estimação”.
“Como se fosse alguém que nunca saiu verdadeiramente da idade infantil”, “que representa um alter-ego”, disse o jornalista, e que na última página da obra, que se lê como "um thriller", permanece “um mistério”.
O jornalista Vítor Matos, que investigou durante mais de quatro anos, referiu-se ao biografado como alguém que tem “uma posição única na sociedade portuguesa” e que “esteve sempre no centro do poder” desde Marcelo Caetano até à queda do Governo de Santana Lopes. A descrição corrobora o cartaz promocional da obra que cita Marcelo como “o homem mais influente da sociedade portuguesa”. Entre os presentes estiveram personalidades como o antigo Presidente da República Ramalho Eanes, a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, a presidente do PS, Maria de Belém Roseira, a social-democrata Manuela Ferreira Leite, a secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares, Teresa Morais, e o deputado do PSD Guilherme Silva.

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