Se a zona euro acabasse, a economia alemã encolheria 10% e o desemprego duplicaria, mostra um relatório do Governo. O país que mais ganhou com a moeda única teria muito a perder.
O cepticismo na Alemanha quanto ao euro tem crescido na exacta proporção em que os seus contribuintes são chamados a desembolsar mais e mais dinheiro para financiar os resgates à Grécia, a Portugal, à Irlanda e, agora, aos bancos de Espanha.
Os críticos de Angela Merkel acusam-na de não reconhecer os benefícios que a maior economia europeia tirou da moeda única. A chanceler responde dizendo que "a força da Alemanha não é infinita".
Mas, na balança da crise do euro, não há dois pesos e duas medidas.
Por mais custos que a grande potência europeia tenha com os seus parceiros do euro, há uma factura que ultrapassa todas as outras: a de uma desintegração da moeda única. Esta semana, a revista alemã Der Spiegel faz capa com o custo que uma ruptura do euro teria para a Alemanha: a economia entraria em queda-livre e o desemprego duplicaria.
A revista cita um relatório interno do Ministério das Finanças, que terá sido mantido em segredo com receio de que não fosse mais possível esconder que o custo de resgatar a zona euro é "um pequeno demónio" quando comparado com o regresso às moedas nacionais, explicou uma fonte não identificada do ministério à Der Spiegel. O Governo não confirma a autoria do relatório, que estima que o fim do euro e o regresso ao marco levariam a economia alemã a encolher 10% só no primeiro ano. Já o número de desempregados iria subir para mais de cinco milhões, quase o dobro dos 2,87 milhões existentes actualmente no país.
Embora esta previsão não seja a mais negra de todas, revela a preocupação com que a maior economia europeia está a olhar para o risco de ruptura do euro, numa altura em que o desconsolo quanto à moeda única ganha força dentro de portas. Uma sondagem conduzida em quatro países do euro e divulgada esta semana mostra que 39% dos alemães inquiridos são a favor de uma saída do país da zona euro. Nos outros países, as percentagens são consideravelmente inferiores: 28% na Itália, 26% na França e 24% na Espanha.
Com as eleições para o Governo a 15 meses de distância, Angela Merkel vê-se a braços com uma tarefa difícil: convencer os seus eleitores de que a Alemanha tem mais a ganhar com o euro do que a perder. Como, aliás, aconteceu desde a introdução da moeda única, em 2002.
Neste momento, a grande força da economia alemã são as exportações, sendo que cerca de 40% dos produtos e serviços do país são vendidos aos outros países da zona euro. Mas foi a entrada para a moeda única que permitiu ao país exportar a sua produção a preços mais estáveis e baixos. O euro eliminou as flutuações das taxas de câmbio e valorizou menos do que o marco alemão. Este cenário, aliado a uma política de moderação salarial, permitiu à maior economia europeia fazer baixar os seus custos unitários do trabalho em mais de 15% face aos seus parceiros do euro.
Deflação e dívida pública
O resultado foi uma explosão das exportações, que tem em empresas como a Volkswagen, a BMW ou a Siemens a sua face mais visível. Segundo os dados do Eurostat, antes de entrar na moeda única, o peso das exportações alemãs no Produto Interno Bruto (PIB) rondava os 30%. Neste momento, metade da riqueza produzida no país vem deste sector. O banco de investimento público alemão KfW estima que a pertença à zona euro tenha trazido à Alemanha lucros de 50 a 60 mil milhões de euros só nos últimos dois anos.
Se a Alemanha sair do euro – ou pelo seu próprio pé ou no âmbito de uma desintegração geral - essa "vantagem competitiva" ficaria em risco. A nova moeda iria rapidamente valorizar face às outras divisas. O banco suíço UBS, num relatório divulgado em Setembro, apontava para uma apreciação de 40%, mas dizia tratar-se de uma previsão conservadora, visto que a nova divisa iria atrair fortes fluxos de capital, em fuga das periferias.
Num cenário deste tipo, as exportações tornar-se-iam muito mais caras, enfraquecendo a competitividade germânica. Juntando a isso o próprio impacto que uma ruptura do euro teria sobre toda a economia europeia e mundial, o UBS admite que a Alemanha possa perder 20% do seu comércio.
"As exportações seriam particularmente atingidas devido ao colapso da procura e à força do novo marco alemão. O financiamento ao comércio sofreria também disrupções, tal como na altura da queda do Lehman Brothers", diz ao PÚBLICO Mark Cliffe, economista do grupo financeiro holandês ING. Numa análise publicada em Dezembro, o director de pesquisa sobre mercados financeiros estimava que a desintegração do euro empurraria a Alemanha para uma perda acumulada no PIB de 12% nos dois primeiros anos (ver infografia) e afectaria o potencial de crescimento nos anos seguintes. O UBS é mais pessimista: a economia cairia 20% a 25% no primeiro ano.
Paralelamente, a depreciação da moeda nos países periféricos conduziria não só a uma recuperação da competitividade dos preços, mas também a taxas de inflação elevadas (de dois dígitos), que reduziriam o rácio de dívida pública em percentagem do PIB.
Na Alemanha, aconteceria o oposto: nas previsões do ING, este rácio subiria de 82% em 2012 a mais de 100% em 2013, para depois descer para 93% em 2016.
Falando em valores, e nas contas do UBS, a saída do euro ou a sua desintegração poderia custar 6000 a 8000 euros a cada alemão no primeiro ano e outros 3500 a 4500 nos anos seguintes. Segundo o banco, isto compara com os 1000 euros que cada alemão teria de "pagar", de uma só vez, se a Grécia, Portugal e a Irlanda incumprissem em 50% da sua dívida. Uma diferença significativa, tanto mais que, se a zona euro se desintegrar, há poucas certezas de que estes países sejam capazes de honrar estas dívidas.
Com a ajuda à banca espanhola, a Alemanha ficará directamente responsável por mais de 100 mil milhões só em pacotes de resgate a países do euro. Além disso, os outros bancos centrais do euro devem ao alemão Bundesbank o equivalente a quase 25% do PIB do país. E os bancos germânicos têm centenas de milhares de milhões de euros em empréstimos aos países periféricos. Num cenário de ruptura da zona euro, é difícil medir até onde iria o impacto financeiro directo sobre a Alemanha.
Uma coisa é certa: nem mesmo agora a maior economia europeia é imune à crise. Mesmo com os investidores dispostos a não ganhar nada com a compra da dívida alemã, a economia vai crescer uns tímidos 0,7% este ano, longe dos 3% do ano passado, segundo as previsões divulgadas ontem pelo Instituto de Economia de Munique (Ifo), que, admite o próprio, estão rodeadas de incerteza. E o desemprego, apesar de estar em mínimos históricos, subiu mais do dobro do previsto em Junho, pelo quarto mês seguido. Com ou sem o euro, a Alemanha também está na corda-bamba.

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