Deputados incomodados com apresentação de livro sobre Camarate no Parlamento

Barata-Feyo afirma que a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa não foi consequência de um atentado.

Livro contraria a tese de sabotagem na queda do avião de Sá Carneiro Alfredo Cunha/Arquivo

Os deputados na X comissão parlamentar de inquérito à tragédia de Camarate manifestaram esta tarde algum incómodo por nas instalações da Assembleia da República ser apresentado um livro sobre a queda do Cessna, em 4 de Dezembro de 1980, que provocou a morte do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, do ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa, seus acompanhantes e tripulação.

A obra, que é apresentada esta quinta-feira no auditório do Edifício Novo da Assembleia da República, da autoria do jornalista José Manuel Barata-Feyo, contraria a tese, aceite pelos deputados desde 1991, que na origem do acidente esteve uma sabotagem.

Ou seja, Barata-Feyo afirma que a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa não foi consequência de um atentado.
“Não acho cordial quando há uma comissão parlamentar em funções sobre Camarate que um livro destes seja lançado na Assembleia da República”, disse, ao PÚBLICO, o deputado do PSD e presidente da comissão, José Matos Rosa.

“Admitimos que o momento não é feliz estando a decorrer uma comissão parlamentar de inquérito, mas a liberdade de expressão deve ser respeitada”, comentou, por seu lado, a parlamentar socialista Isabel Oneto.

“Não quero fazer disto um caso, embora acha caricato que, estando a decorrer uma comissão de inquérito, que seja lançado no parlamento um livro anunciado pelo próprio autor como um ataque à Assembleia da República sem ser ouvida a mesa da comissão”, disse o deputado Ribeiro e Castro, do CDS.

A agência Lusa citou passagens do livro, editado pelo Clube do Autor, que põem em causa as investigações parlamentares de inquérito.

“A verdade é que não há uma única prova documental ou científica incontroversa – uma única – de que o avião tenha sido alvo de sabotagem. Em contrapartida, há inúmeros indícios de que a tese do atentado se tornou um dogma político, avesso à lógica e ao bom senso”, escreve José Manuel Barata-Feyo em Camarate, o grande embuste – factos e conveniências. Esta obra tem como mira o volume “Camarate”, editado pela Assembleia da República e que reúne os relatórios do trabalho realizado pelas sucessivas comissões parlamentares até à 8ª, de 2004, que foi presidida pelo centrista Nuno Melo.

O livro que reúne este trabalho, segundo Barata-Feyo, “inclui apenas os testemunhos, opiniões e relatórios que defendem a teoria da sabotagem e ignora todos os relatórios dos peritos, nacionais e estrangeiros, que apontam para o acidente”. Estas afirmações foram repudiadas pelo deputado do CDS, Ribeiro e Castro. “É mentira, o livro Camarate inclui todos os relatórios independentemente da sua conclusão”, disse ao PÚBLICO.

“A partir da 4ª comissão, em 1991, a Assembleia da República pronunciou-se pelo atentado, o que foi confirmado pelas sucessivas comissões. Ao PÚBLICO, José Manuel Barata-Feyo contrapôs: “O livro publicado pela Assembleia da República em 2005, só publica relatórios que não abonam a favor do acidente, não estão lá, por exemplo, os relatórios da Direcção-Geral de Aviação Civil, do LNETI [Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial], de Sir Erik Newton ou do perito Mason.”

 

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