Cristas descola do PSD, mas estará preparada para novos voos?

O CDS foi o único partido com assento parlamentar que mudou de liderança em 2016.

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Nuno Ferreira Santos

Há nove anos, Paulo Portas pediu a uma figura desconhecida da política que o ajudasse a melhorar o partido. Assunção Cristas aceitou, foi ministra ao fim de quatro anos, e depois de pouco mais de outros quatro, tomou conta do CDS, com a bênção do líder que se afastou por vontade própria. Essa transição (pacífica) aconteceu em 2016 e foi a única mudança de liderança partidária. Com um novo estilo, Assunção Cristas foi fazendo um corte com o Governo do passado, privilegiou temas como a natalidade e a educação, mas deixou a estratégia dos “nichos” de mercado trabalhada por Paulo Portas. A oposição tem estado mais contida desde que Assunção Cristas se apresentou como candidata à Camara de Lisboa. Até porque agora pode vir a ter o apoio do PSD.

Logo em Março no congresso em que sucedeu a Portas, Assunção Cristas colocou em cima da mesa os temas que viria a agendar no Parlamento nos meses seguintes: Educação, natalidade, envelhecimento e segurança social. Pacotes legislativos que são caros ao CDS mas que a oposição interna e até os mais próximos consideraram insuficientes para construir uma liderança forte. Falta-lhe uma melhor comunicação política, admitiam figuras da direcção de Cristas, em Setembro, seis meses depois de ser eleita.

No congresso, Assunção Cristas anunciou o apoio ao independente Rui Moreira na corrida eleitoral autárquica do Porto, uma decisão que alguns consideram ter sido precipitada. Desde o momento da sua eleição em congresso, Assunção Cristas apresentou-se com um novo estilo mediático, expondo a sua família. E tornou-se a primeira líder partidária em funções a ter um espaço de comentário na CMTV.

A ex-ministra da Agricultura foi descolando do anterior Governo PSD/CDS, deixando para Passos Coelho toda a defesa das medidas difíceis entre 2011 e 2015. Sinal das diferenças entre os dois partidos foi o primeiro OE da “geringonça”, em que CDS optou por apresentar propostas de alteração enquanto o PSD se absteve de participar.

A mudança de liderança – e a troca por uma mulher – facilitou uma imagem de refrescamento face ao PSD que, durante meses, foi visto como permanecendo preso ao passado. A oposição interna - que fez uma lista alternativa ao Conselho Nacional no congresso e que era encabeçada por Filipe Lobo d’Ávila -  foi bastante crítica no Verão sobre as sucessivas fotografias de Cristas em poses descontraídas enquanto o país estava a braços com incêndios de grandes dimensões. Cristas parece uma “actriz de telenovelas”, apontou Raul Almeida, ex-deputado e porta-voz da lista opositora à direcção. A contestação subiu de tom quando o CDS se fez representar institucionalmente no congresso do MPLA, através do deputado Hélder Amaral, que registou uma “aproximação” entre os dois partidos.

Em Outubro, Assunção Cristas teve o seu primeiro teste eleitoral com as regionais dos Açores, onde o CDS conseguiu mais votos e aumentou o número de deputados de três para quatro, mas não elegeu a candidata a São Miguel, apesar do investimento feito na candidatura.

Agora, nas autárquicas, o CDS terá de manter as suas cinco câmaras, incluindo Ponte de Lima em que o ex-deputado Abel Baptista é candidato independente, depois de uma ruptura com a líder.

Em Lisboa, o PSD está disposto a fazer uma coligação com o CDS. Se esse cenário se concretizar, a fasquia sobe. No partido, há quem exija a vitória. E se isso vier a acontecer pode ficar em causa um dos papéis: Assunção será presidente da autarquia ou candidata a primeira-ministra? 

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