Alfredo Barroso lança livro contra o unanimismo e pelo debate à esquerda

Alfredo Barroso considera que Cavaco Silva "é um fracasso como Presidente da República" Rui Gaudêncio

Quer quebrar o unanimismo e redinamizar a esquerda. Para isso escreve o que pensa sobre a actual crise, as razões dela e os possíveis caminhos de futuro. O Presidente Cavaco Silva é um dos principais visados.

Alfredo Barroso está "convencido de que, se não houver discussão à esquerda, a situação de bloqueio não avança", pois "o PS está parado, não debate e deixa-se ficar preso a compromissos". Por isso, este publicista e antigo chefe da Casa Civil do Presidente da República Mário Soares decidiu responder ao desafio que lhe foi lançado por Fernando Rosas e por Manuel Alegre e desenvolver em ensaio as reflexões que tinha divulgado em textos de opinião no jornal i.

O resultado é A Crise da Esquerda Europeia, editado pela D. Quixote, um livro que, segundo o autor, "procura romper com o pensamento único que o neoliberalismo instituiu há muito" e quer contribuir para abrir espaço a "um pensamento que seja livre dos interesses financeiros e dos poderes". O ensaísta critica assim a situação de falta de pluralidade que existe em Portugal e afirma que "nas televisões, por exemplo, aparecem sempre os mesmos economistas a sustentar e a justificar as políticas de austeridade". Um clima para o qual Alfredo Barroso não poupa as responsabilidades do PS: "O PS instalou-se no rotativismo, cedeu às sereias do blairismo, entrou na zona de conforto e aceitou a ideologia do dinheiro que nos domina."

Um dos traços deste livro é a crítica a Cavaco Silva. Ao PÚBLICO, Alfredo Barroso confirma a sua crítica a Cavaco: "Cavaco é um fracasso como Presidente da República. Já o achava mesmo antes de ele cair nas sondagens." O chefe da Casa Civil de Mário Soares considera mesmo que Cavaco "é um dos principais políticos responsáveis pelo estado a que o país chegou e garante que com isto não está "a desresponsabilizar os outros políticos do PSD e do PS". Considera mesmo que "o PSD, ao radicalizar à direita, foi uma surpresa. Passos Coelho surpreendeu por ter puxado o partido tão à direita".

Mas insiste na ideia de que "Cavaco é dominante nos últimos 30 anos, ele é estrutural, ele criou o monstro". Já no livro, Alfredo Barroso compara Cavaco a Salazar. "Para políticos que dizem situar-se rigorosamente ao centro, como era o caso do primeiro-ministro Cavaco Silva, a política na sua dimensão conflitual é algo do passado", por isso, defende Alfredo Barroso, "o tipo de democracia que recomendam é uma democracia consensual, totalmente despolitizada, não partidarizada, quase sem confronto entre adversários, sujeita aos princípios tecnocráticos e burocráticos implícitos naquilo que os banqueiros, gestores e empresários "modernos" designam por "boa governança", seja lá isso o que for."

É então que lembra Salazar a este propósito. "Esta concepção aparentemente "moderna" teve a sua tradução histórica em Portugal com a instauração de uma "democracia orgânica" por Salazar, em 1933. Uma "democracia" em que só era consentido o partido único, a União Nacional, e em que os adversários políticos eram considerados subversivos, postos fora da lei, perseguidos pela polícia política e forçados, muitas vezes, a passar à clandestinidade, para fugir à prisão e à tortura."

Mas esclarece que faz um paralelo, não igualiza: "Claro que Cavaco Silva não pretende instituir uma "democracia orgânica" e tem respeitado sempre as regras da democracia pluralista, ascendendo aos mais altos cargos políticos através de eleições". Mas conclui que "o seu desejo ardente de uma democracia consensual, sem conflitos entre adversários, sem "ilusões" e "utopias", virada para o "futuro" e cheia de "esperança", dominada por discursos politicamente correctos e esvaziada do confronto de ideias (que só pode subverter o consenso), é algo de genético e intrínseco, que está sempre implícito (e várias vezes explícito) no discurso de Cavaco Silva."

E Alfredo Barroso sustenta ainda que, como Presidente, "no seu primeiro mandato, tentou colar-se a Sócrates quando pensou que tudo ia correr bem; depois descolou, quando percebeu que a situação económica não dependia fundamentalmente de Sócrates". E insiste: "Quando percebeu a crise, passou o tempo todo a sacudir a água do capote." Acusando Cavaco de ter contribuído "decisivamente para a queda do Governo."

Cavaco foi, assim, na opinião de Alfredo Barroso, "muito hipócrita". E o ensaísta conclui: "Eu sei que a política não se faz sem hipocrisia e cinismo. Mas mesmo para a hipocrisia na política há limites."

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