Querido Pai Natal,
Deves estar pasmado por, passados tantos anos, te voltar a escrever na quadra natalícia. É que, depois de ver o nosso terceiro, Paulo Portas, e os seus deputados aprovarem um Orçamento do Estado que, no essencial, contém tudo contra o qual gritavam há um ano e picos, voltei a acreditar na tua existência.
Imaginas ao que venho. Tal como na minha meninice, serve esta missiva para te apresentar a minha lista de prendas de Natal. Desejos que talvez só tu possas realizar. Calma, não te vou pedir o fim da guerra, da fome e da crise no mundo. Não é que não o deseje, mas isso já muitos pediram e nem tu nem nenhum teu superior hierárquico os satisfizeram.
Os meus três desejos são mais comezinhos. Coisas para o dia-a-dia, mas nada insignificantes.
Vamos a isto. Em primeiro lugar dava-me muito jeito que me presenteasses com um dicionário de "passês”. Um dicionário que me permitisse saber o que quer dizer o nosso líder do Governo, Passos Coelho, e não o que ele disse. Admito que estejas confuso. Vou tentar explicar: acontece que o nosso primeiro dá uma entrevista, ou faz uma declaração, e diz qualquer coisa mais ou menos clara como água.
A malta, os portugueses, entende que ele disse branco e, passado um dia ou dois, o nosso primeiro diz que disse preto e que foi mal interpretado. Há uns tempos ainda tínhamos Miguel Relvas para nos trocar por miúdos as declarações de Passos, mas como ele anda agora com muitos afazeres é chato ser o primeiro-ministro a puxar as orelhas aos portugueses por não o entenderem.
Se conseguires arranjar o tal dicionário, envia também um por caridade para o dr. Seguro. É que o Tó-Zé, como lhe chamam no PS, passa a vida a manifestar-se ora espantado, ora chocado, ora as duas coisas, com as palavras do nosso primeiro e esse estado de espírito permanente deve dar-lhe cabo dos nervos. E para lhe estilhaçar a nervura já lhe chega a malta do Rato, como o Costa e os ditos “socráticos”, que não param de lhe moer a cabeça e de lhe cavar buracos no caminho.
A segunda prenda é mais para me divertir neste tempo em que vivemos entroikados. É uma prenda um bocadinho mais complicada, mas como se diz que tu e os teus duendes fazem milagres aí na Lapónia aqui vai: uma televisão.
Não uma televisão qualquer. O que eu queria mesmo era um grupo RTP, com várias televisões e rádios. Um serviço público de comunicação, que ninguém sabe exactamente o que é e por isso dá para tudo.
Uma coisa que eu pudesse controlar com o dinheiro dos portugueses sem ter que lhes dar conta de como estafo o pilim.
Nem precisa de ser toda, pode ser só 49%. Até me dava jeito que assim fosse. Eu ficava com quase metade, continuava a mandar, mas quem geria eram os privados. Se correr mal, a culpa é dos outros; se correr bem, o sucesso é de todos, especialmente de quem teve a ideia brilhante e absolutamente inovadora.
Só te queria pedir um favor: se me conseguires esta magnífica prenda, avisa antes para eu te dizer a quem deves ofertar os 51%. Convém que seja alguém que me garanta o servicinho público por muitos e longos anos.
A terceira e última prenda é menos complicada. Queria uma Kalashnikov. Calma, não quero fazer mal a ninguém com esta poderosa arma. Podes dar-me até uma AK47 de plástico e made in China. Podias mesmo dar este brinquedo a vários portugueses.
É que, sabes, desde que o historiador Pacheco Pereira apareceu com uma autêntica Kalashnikov no seu programa de televisão domingueiro na SIC Notícias, o Passos e o Gaspar, o primeiro e o segundo, não falaram em novos cortes, nem em aumentos de impostos. Pode ser que um brinquedo destes nas mãos de mais portugueses faça o primeiro e o segundo mudar de rumo.
Termino com respeitosos cumprimentos. Vê lá o que podes fazer por este entroikado.
PS: Querido Pai Natal, aceita um conselho: quando passares por Portugal, passa a abrir. Dá gás às renas e evita o Terreiro do Paço. Se o Gaspar, o nosso segundo, te apanha, ainda te taxa as prendas a 23% e não ganhas para os ordenados dos duendes, nem para palha para a bicharada.

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