A ciência e a investigação científica têm força para mobilizar o entusiasmo de muitas pessoas de um modo que se torna difícil de descrever.
A descoberta e a ambição do conhecimento, a procura curiosa de respostas ou soluções para os problemas, o debate livre e permanente de ideias, a energia inesgotável do pensamento, são alguns dos alicerces deste fantástico encantamento. No meu caso particular, o feitiço é facilitado pela descoberta da beleza singular inerente ao próprio objecto de estudo: a natureza. Mas não são apenas estes os ingredientes do sucesso da ciência no mundo de hoje, e de um modo especial entre os jovens.
A internacionalização da ciência não é uma realidade recente, mas entre nós foi claramente potenciada nos anos de integração europeia, e foi muito valorizada com as actuais ferramentas de comunicação, constituindo hoje uma motivação adicional para quem se dedica e se deixa envolver pela ciência. A oportunidade de conhecer e dialogar com outras culturas, de trabalhar com investigadores do mundo inteiro em prol de objectivos comuns, torna este movimento internacional ainda mais atraente. Mas julgo que, para qualquer investigador, os momentos mais gratificantes acontecem quando assistimos à conclusão dos trabalhos dos jovens que orientamos, tantas vezes epílogo de um intenso acompanhamento dos seus percursos científicos e pessoais, ajudando-os a crescer na actividade de investigação, numa partilha cúmplice dos seus êxitos e objectivos.
E como tem crescido a comunidade de jovens portugueses que se deixam seduzir pela ciência! No meu próprio grupo, tenho o privilégio de vivenciar esta vitalidade invulgar, que contrasta com o cenário de depressão do país. No domínio da ciência, Portugal deu nos últimos anos um salto quantitativo e qualitativo inquestionável. E é também por isso que convoco hoje este assunto. É verdade que o país vive problemas estruturais graves e complexos, agravados por uma conjuntura europeia muito crítica, que tornam cada vez mais difícil encorajar e manter vivo o sonho, mesmo com estes jovens investigadores, que são seguramente daqueles que mais ambição projectam no futuro. Mas não podemos desperdiçar um trajecto que, de forma progressiva e consistente, nos colocou num patamar competitivo internacional.
É preciso dar sequência ao esforço de crescimento formativo; compreender e fazer compreender o valor da ciência como fonte e expressão da vitalidade criativa do país. Na educação e na ciência está a força motriz daquela que tem de ser a nova fase empreendedora de Portugal. Não podemos por isso abandonar um percurso positivo que demorámos décadas a construir, e que corre o risco de colapsar em dois ou três anos. A ciência portuguesa é hoje muito produtiva, e o seu impacto não deixará de se reflectir no desenvolvimento do país. A ambição política tem que ser capaz de apoiar e gerar oportunidades para os jovens investigadores portugueses; eles estão disponíveis para dar o seu melhor contributo e promover o desenvolvimento competitivo de Portugal num mercado global. Estas oportunidades, devem ser equacionadas em ambiente empresarial, mas devem ser igualmente criadas nas universidades, patrocinando sempre que possível as sinergias que é indispensável fomentar entre estes dois mundos.
Bióloga, Vice-reitora da Universidade de Coimbra

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