O João (9) e o Francisco (6) vêm no carro com o avô Zé após o primeiro jogo de rugby do João. O avô Zé vem muito satisfeito e orgulhoso pois também ele foi jogador de rugby da seleção nacional.
João: Achas que joguei beerapem avô?
Avô Zé: Jogaste muito bem João!
João: Mas só conseguimos dois empates...
Francisco: E uma derrota! (sorriso malandro)
João: Porque eles eram mais fortes!
Avô Zé: Meninos isso não é o mais importante. O que importa é que se esforçaram e foi um jogo justo.
João: Mas disseste que eu empurrei e que tenho que os agarrar... mas eles eram mais fortes... se calhar não tenho jeito...
Francisco: Se calhar não... (sorri novamente)
João: És mesmo parvo! Queria-te ver a ti lá! Jogavas muito melhor que eu não jogavas avô?
Avô Zé: Oh João não digas isso. Como é que queres depois de só teres ido a um treino e jogado um jogo já quereres saber fazer tudo bem? Isso não é possível, nem no rugby, nem em nada na vida. Olha que o avô mesmo passados muitos anos de andar no rugby continuava a aprender e muito!
Francisco: A sério avô?
Avô Zé: Sim, Francisco. É como com o teu futebol. Já estás a jogar melhor agora do que no início do ano!
João: Avô... quando fores muito velhinho, com 90 anos e estiveres doente na cama... eu vou ficar sempre a teu lado!
Francisco: O pior é se a mãe não deixa...
João: És mesmo parvo! Despacha-te mas é que a avó Linda prometeu que íamos fazer as bolachas de Natal hoje à tarde!
Neste diálogo podemos sentir a “dança” de afetos que encontramos em tantas relações de avós e netos! A participação ativa na vida uns dos outros, a partilha de interesses e experiências, a disponibilidade para as conversas e muito amor são ingredientes essenciais na construção desta Relação que é para Sempre!
Com as alterações cada vez mais presentes no dia-a-dia das famílias: aumento da taxa de divórcios, ambos os pais com vidas cada vez mais exigentes do ponto de vista laboral – e sobretudo, nos tempos atuais, às maiores preocupações de ordem económica e desemprego que lhes traz menor disponibilidade física e emocional para dedicar aos filhos – bem como com o aumento da esperança média de vida, os avós têm agora um papel determinante na vida dos netos.
Os avós estão numa fase do Ciclo de Vida onde a estabilidade e a experiência lhes permite terem mais tempo real e maior disponibilidade para estar e ouvir os netos, mais capacidade para relativizar que absolutizar, transmitindo valores de tolerância e entrega. Para os avós, estar com os netos representa, além do cansaço, o sentimento de continuidade da sua própria vida que os faz investir de forma tão apaixonada nesta relação!
Atualmente muitos avós também trabalham, pelo que já não são apenas substitutos parentais – podem estar menos tempo, mas é um tempo onde a qualidade das relações saiu a ganhar! Não estão apenas a servir necessidades e podem agora dedicar-se mais ao “serviço dos afetos e da partilha”.
Os netos valorizam e precisam realmente da estabilidade que esta relação traz às suas vidas, agora mais agitadas e “preocupadas” pela vida dos pais. É nos avós que sentem muitas vezes a confiança e tranquilidade para verbalizar estas inquietações, até porque procuram a todo o custo proteger os pais de mais motivos de preocupação e evitam partilhar com eles o seu sofrimento.
Esta é uma relação com maior suavidade na imposição de regras, onde é possível mais excepções ou infringimento das mesmas. Mas não tenhamos dúvidas que as crianças sabem distinguir perfeitamente o que cada adulto lhes pede. Pelo que se, por força de circunstâncias, passarem mais tempo com os avós que com os pais, os avós serão “obrigados” a impor mais regras, deixando mais espaço na relação com os pais para os mimos e brincadeiras!
No que respeita à definição de papéis, onde a competição pelas crianças está muitas vezes presente, é importante que cada família vá descobrindo e construindo a forma mais confortável para todos, de acordo com as suas circunstâncias e necessidades, para estar e dedicar às crianças. Naturalmente é importante encontrar um equilíbrio para o casal e família nuclear, onde não haja risco de perda da sua liberdade e autonomia.
Sabemos que os pais são por natureza mais inseguros na relação com os filhos, sendo por isto tantas vezes mais exigentes. Os avós recordam na sua relação com os netos as “culpabilidades” enquanto pais, pelo que acabam por ser mais tranquilos e tolerantes.
É comum assistirmos a reacções mais exuberantes nas crianças na presença das duas hierarquias – pais e avós – não por qualquer sentimento de dúvida na definição de papéis mas sim pela curiosidade, e até prazer, ao confirmarem a alteração de comportamentos de cada um dos adultos na presença dos outros. Muitos já ouvimos a célebre frase, num tom quase malicioso: “Mãe é o avô que manda em ti não é?”
A autora é psicóloga clínica e terapeuta familiar. Escreve segundo o Acordo Ortográfico.

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