Opinião

A reindustrialização e o papel das universidades

A reindustrialização tem sido a estratégia assumida pelo governo português para alavancar o crescimento económico. O regresso à indústria professa assim a eficácia do modelo alemão, numa aposta europeia concertada para sair do fraco crescimento económico que vem mantendo.

 

Embora não goste da expressão – a apologia de um modelo de desenvolvimento que recomeça, e que implicitamente já decorreu, o por si só merece detalhada análise –, admito que possa ser pela falta de literacia económica que uma interpretação adequada exige. Percebo a intenção do governo, incitando o empenho na produção intensa de bens transaccionáveis, ou seja, favorecendo fortemente as exportações e substituindo as importações, designadamente apostando nos sectores produtivos associados ao território e aos nossos recursos naturais. Neste objectivo, há um amplo consenso na sociedade portuguesa, de tal maneira que mesmo as personalidades mais seriamente comprometidas com as piores opções políticas do passado, apagaram algumas memórias inconvenientes e abraçam agora estes nobres objectivos estratégicos para o desenvolvimento de Portugal. Ainda bem.

Mas a verdade é que nem Portugal nem a Europa podem esperar obter os resultados que obteve a China em resultado da sua industrialização, nem as indústrias europeias estão em condições de competir com as asiáticas, nos mesmos segmentos e produtos, a não ser com a adopção de regras que limitem o comércio de produtos oriundos desses países. Seja como for, para além do tempo que levará a produzir os resultados desejados, importa reconhecer que esta estratégia só é realista se fortemente impulsionada pelo conhecimento e pela inovação. Jamais seremos competitivos num cenário global, na ausência ou insuficiência destes factores mobilizadores. É aqui que reside a maior preocupação: o Estado perdeu dramaticamente recursos humanos e competências ao longo das últimas décadas. A administração foi forçada a abdicar de pensar as políticas e de planear os investimentos, e não tem hoje os recursos qualificados para preparar e planear de forma célere e consistente o que o país precisa.

É por isso indispensável apostar no conhecimento, em grande medida associado às universidades e aos seus centros de investigação, e no seu contributo para o crescimento económico, apoiando novas plataformas ou redes formais de suporte, que facilitem a transferência de conhecimento para a administração central e local. Estas estruturas, têm que estar activas e operacionais na aplicação dos próximos fundos comunitários de apoio a Portugal, sendo crucial eleger as áreas em que mais rapidamente podemos desenvolver actividade económica sustentável. Neste momento, é fundamental garantir a capacidade do país para planear, estruturar e organizar a aplicação dos fundos comunitários de forma eficiente e inequívoca, contrariando o desbarato que marcou o passado. Entre considerações e prioridades, para além de outras áreas, parece haver intenção de valorizar os recursos endógenos, propondo-se a coordenação de políticas públicas orientadas para a agricultura e pescas, o que é muito positivo. No entanto, estas áreas – que incluem sectores pujantes e tecnicamente muito capacitados –, abrangem também outros sectores em que, por força da história recente, há carências técnicas e científicas importantes no próprio tecido produtivo que é convocado a competir. Estas situações em particular, reclamam um forte empenho das universidades e dos seus melhores profissionais, que passaram a ter uma acrescida responsabilidade social que não podem, nem devem, declinar.

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