O conflito tornou-se ainda mais sangrento na Síria, continuou a martirizar o Afeganistão e foi frequentemente reavivado na África Ocidental, Central e Oriental. Houve vários episódios de violência causada por razões étnicas, sectárias e políticas em Mianmar (Birmânia), no Sul da Ásia e no Médio Oriente. As tensões entre a China e os seus vizinhos aumentaram no Mar da China Meridional e, entre a China e o Japão, no Mar da China Oriental. As questões relacionadas com os programas nucleares da Coreia do Norte e do Irão permanecem sem solução.
E ainda assim, muitas das irrupções que se temiam a nível nacional e entre Estados não ocorreram. A forte pressão internacional ajudou a refrear rapidamente a Segunda Guerra de Gaza. Um acordo de paz há muito procurado foi garantido para a ilha de Mindanau, no sul das Filipinas. Foram dados passos consideráveis com vista a uma paz sustentável e reconciliação em Mianmar. Não houve registo de qualquer tragédia significativa de genocídio. E, apesar da paralisia do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação à Síria, os estados-membros da Assembleia Geral da ONU deixaram claro que continuariam a aceitar de forma indiscutível a responsabilidade de proteger as potenciais vítimas de crimes atrozes em massa.
A verdadeira história foi ocultada, como sempre, pela preocupação diária dos órgãos de comunicação social a respeito do derramamento de sangue em curso: Durante as duas últimas décadas, as grandes guerras e os episódios de violência em massa em todo o mundo tornaram-se muito menos frequentes e mortais. Após o auge que se verificou no final de 1980 e muito no início de 1990, houve uma redução de mais de 50% no número de grandes conflitos, quer entre estados quer a nível interno, no número de genocídios e de outros crimes atrozes em massa e no número de pessoas que morreram em consequência desses crimes.
Este fenómeno de "Nova Paz" foi divulgado pela primeira vez no Projecto do Relatório de Segurança Humanade Andrew Mack, apoiado pela insuperável base de dados do Programa de Dados de Conflito de Uppsala. Steven Pinker, no seu livro seminal The Better Angels of our Nature (Os Melhores Anjos da nossa Natureza, ndt.), posiciona o fenómeno num contexto histórico mais amplo - não apenas de "paz duradoura" entre as grandes potências desde 1945, mas, mais importante, de um padrão secular de diminuição progressiva do apetite humano pela violência.
Os inúmeros esforços levados a cabo para desacreditar esta análise (como por exemplo, o artigo de John Arquilla publicado no Foreign Policy ) não foram convincentes. É certo que se tem registado, desde 2004, um ressurgimento daquilo a que os estatísticos (ou mesmo os humanistas) designariam como "pequenos conflitos armados". Mas, no caso dos conflitos de "alta intensidade" ou guerras (cuja definição implica um número de mortes em consequência de combates igual ou superior a 1.000 por ano), a linha tendencial tem-se mostrado inequivocamente descendente. E esta referência é igualmente válida no que diz respeito à morte de civis em consequência da guerra.
As explicações para este fenómeno variam. No caso da Nova Paz pós-Guerra Fria, a melhor explicação traduz-se simplesmente no rápido crescimento em termos da prevenção de conflitos, da gestão de conflitos, da promoção da paz negociada e da actividade de construção de paz pós-conflito que ocorreu durante os últimos quinze anos - sendo a maior parte destas acções encabeçadas pela tão criticada ONU.
Para a Paz Duradoura, a explicação mais intrigante - e, na minha opinião, mais persuasiva, embora muitos possam discordar – tem a ver com uma mudança normativa fundamental que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, ocorreu entre os decisores políticos das principais potências. Tendo testemunhado a devastação do século passado, simplesmente já não encontram qualquer virtude, nobreza, ou utilidade na guerra, nem certamente na ofensiva nuclear. Isso não significa que não possamos cair numa guerra - ou num conflito nuclear - por acidente, erro de cálculo, erro de sistema ou sabotagem, mas o risco é extremamente reduzido.
O maior teste para esta tese será a forma como a China e os Estados Unidos reagirão, nos próximos anos, à mudança dramática que está actualmente em curso no seu poder económico relativo e, em última análise, militar. A reeleição do Presidente Barack Obama oferece uma dose razoável de esperança de que os EUA atribuam algum espaço estratégico à China, através de uma política de cooperação mutuamente acomodatícia, em vez de insistir no domínio ou na primazia. Mas qual será a atitude da China sob a sua nova liderança?
Num discurso recente e profundamente ponderado, proferido na Brookings Institution, em Washington DC, Kevin Rudd, antigo primeiro-ministro da Austrália que fala mandarim, descreveu os possíveis cenários externos para a China durante a próxima década. Os cenários abrangiam desde a prossecução activa de políticas de poder de soma zero, com o intuito de dominar o hemisfério e não só, até um envolvimento estratégico com os EUA e outros parceiros na Ásia, para manter e melhorar a actual ordem internacional baseada em regras. Embora sugerisse que os países deveriam precaver-se contra o cenário mais pessimista, Rudd quis deixar claro que é um optimista: se o resto do mundo mantiver uma política de cooperação com a China, o novo Presidente, Xi Jinping, e a sua equipa optarão por uma via não conflituosa.
O optimismo é uma boa opção neste contexto, tal como o é num contexto mais generalizado. Há fortes razões históricas para acreditar que a guerra agressiva se tornou simplesmente obsoleta como instrumento de política de Estado. Tendo esgotado a maioria das alternativas ao longo dos anos, os líderes nacionais começaram a interiorizar as virtudes da cooperação.
Além disso, tanto na política externa, como na própria vida, as perspectivas podem ser de auto-reforço e de auto-realização. Os pessimistas consideram mais ou menos inevitáveis os conflitos de um ou outro tipo e adoptam uma abordagem altamente desconfiada e competitiva nas relações internacionais. Para os optimistas, o que importa é acreditar e alimentar o instinto de cooperação, na esperança e expectativa de que os valores humanos condignos acabarão por prevalecer. Se queremos mudar o mundo para melhor, deveremos começar por acreditar que é possível.
Tradução: Teresa Bettencourt

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