Uma reportagem como exemplo

Uma reportagem da TVI sobre a segurança alimentar exemplifica o que pode ser o jornalismo televisivo de interesse público (Repórter TVI, 12/9). O jornalista Rui Araújo apresentou uma investigação sobre os alimentos que comemos, sejam eles os da beira da estrada, da agricultura biológica ou os da indústria alimentar vendidos nos talhos, padarias ou hipermercados.

O trabalho ganhou grande solidez informativa com as análises a centenas de alimentos mandadas fazer em laboratórios. As conclusões, terríveis, mostram que comemos alimentos com componentes venenosas em excesso, sejam os legumes plantados nos terrenos públicos do IC19 e da Segunda Circular, em Lisboa, sejam os de agricultura biológica e das grandes superfícies. A informação ou é desconhecida pelos próprios agricultores ou industriais, ou é escondida.

A reportagem ouviu especialistas e outras fontes, apresentou casos de polícia, falou da legislação favorável ao prevaricador (as eventuais multas compensam o uso excessivo de venenos) e referiu a mais do que deficiente fiscalização, a cargo do Estado que sustentamos também para isto. A reportagem manteve-se no registo da linguagem rigorosa, bem diferente das banalidades emocionais frequentes noutras grandes reportagens.

Detalhe importante: o repórter Rui Araújo, que deu a voz, não precisou de "aparecer" como costumam os seus colegas. A reportagem foi dele, só dele, mas absteve-se de inventar situações em que aparecesse de microfone na mão a falar para a câmara. Mostrou, pelo seu trabalho, que não precisa da vaidosa presença no ecrã para mostrar o que vale profissionalmente. As reportagens costumam melhorar com uma locução em off bem escrita e adaptada aos planos disponíveis, sem que o repórter tenha de se mostrar. Sem ter o aprumo estético das reportagens longas da SIC, esta tinha um motivo de interesse suplementar, em contraste com a maioria das reportagens dos canais generalistas, concentradas amiúde em temas de "interesse humano" sobre um problema ou característica de poucas pessoas: esta dizia respeito à vida de todos os portugueses.

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