Casa da Música: uma pequena nota para os senhores de Lisboa

Caros senhores, responsáveis políticos por governarem um Estado chamado Lisboa e desestruturarem a sua periferia chamada Portugal.

Não tirem já a conclusão de que sou um adepto da regionalização. Não o sou, nem nunca o fui. Acredito na unidade composta pela diferença. A minha identidade é portuguesa, absorvendo as suas diferentes características e usos variados.

No fundo, sou apenas um cidadão do Norte Litoral dessa Vossa Periferia que, por ter emigrado para Lisboa durante muitos anos, consegue mais facilmente identificar a forma discriminatória como a maioria dos apoios é distribuída (sei que o termo correcto seria "migrado", mas a discrepância entre Lisboa e a Periferia é tão grande que me senti sempre um "estrangeiro").

Hoje, Lisboa e a Periferia encontram-se em estados muito distantes de desenvolvimento cultural. Naquela temos as mais variadas instituições, fundações e organismos ligados à concretização do direito à cultura de todos os portugueses. Aí se encontram e aí desenvolvem actividade, deslocando-se apenas à Periferia para alguns eventos pontuais. Por isso, nos últimos anos, desenvolveu-se, e refiro-me à realidade do Norte Litoral, uma política alternativa de aposta na cultura, impulsionada pela vontade e trabalho de muitas pessoas. Esta região há muito que precisava do dinamismo que Serralves e a Casa Música trouxeram, não só pela qualidade e proximidade das suas programações culturais e educativas, mas também porque se transformaram numa marca que impulsionou a restante estrutura cultural desta Periferia a redefinir-se e a reposicionar-se enquanto agentes activos de implementação do direito à cultura. Por isso sabemos que Serralves e a Casa da Música não são instituições do Porto, mas sim do Norte.

Li na quarta-feira que a direcção da Casa da Música se demitiu como manifesto contra a nova política do ministro da Cultura (desculpem-me o erro, mas ainda não consigo acreditar que tenham reduzido a cultura a um estádio menor da organização governativa).

Fico triste com tal decisão, porque era composto por pessoas que lutaram muito para serem o que são, sem precisarem de comprar licenciaturas ou subir em esquemas partidários. Penso que esta demissão até acabará por ir ao encontro dos interesses de Lisboa que cada vez mais lutam por instrumentalizar a Periferia, reduzindo os cidadãos a máquinas de trabalho precário e pagadores de impostos de luxo.

Porém, e penso que os Senhores o sabem bem, a cultura e a educação são cruciais na manutenção da democracia e no desenvolvimento da pessoa humana. Pena que a defendam só para alguns, como se se tratasse de um consumo de luxo.

Pois bem, aqui na Periferia já há muito tempo que preferimos não jantar e encaminhar o dinheiro que poupamos para pagar a portagem (sim, porque não temos uma rede de transportes públicos e chegar ao Porto hoje é ter inevitavelmente que andar nas Scut) que nos levará à bilheteira e, gastos os muitos euros que são necessários para usufruirmos da cultura, subirmos a um patamar superior da nossa existência, assistindo a um concerto ou a uma exposição, ouvindo poemas, vendo actores a chorar e bailarinas a voar.

Porque ao contrário do que acreditam em Lisboa, aqui preferimos ficar de barriga vazia mas cheios de estímulos criativos e culturais. Gostamos de cultura e vivemos para a cultura.

O que querem fazer com a Casa da Música não é apenas poupar uns trocos. É repressão cultural. E nem o argumento da igualdade dos cortes vos vale, pois ele não tem servido para fixar e apoiar as estruturas, estando vocês obsoletos e nós com tanta falta.

Andamos sempre serenos a ver os submarinos a passar, mas o vosso desrespeito para com os cidadãos tem de começar a ser chamado à razão. Exerço por isso o meu direito enquanto cidadão e peço-vos que deixem trabalhar quem há muito o faz e o faz muito bem, sem esquemas e "amigos". Obrigado.

Comentários

Comentar

Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários.

Caracteres restantes: