Uma cimeira para o futuro da Europa

Não é dramatismo, é a realidade: o futuro do euro e de uma forma de vida está em jogo em Bruxelas

1.Quando a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, o primeiro-ministro italiano, Mário Monti, ou uma plêiade de economistas de diferentes influências ideológicas avisam o Mundo que a moeda única europeia pode acabar no prazo de dias, temos de parar e encarar a ameaça. O problema é sério e as suas consequências podem ser catastróficas. Por muito que os optimistas acreditem numa solução no último minuto da última hora, é bom que tenhamos consciência da gravidade do que está em jogo. A União Europeia pode estar no limiar da maior hecatombe social, política e financeira da sua existência.

É por isso que quando se olha para o Conselho Europeu que hoje se inicia não se deve relativizar o facto de ser mais uma "cimeira decisiva", em tudo semelhante às outras 20 "cimeiras decisivas" que decorreram desde que a fragilidade do euro se revelou na Grécia. O que nestes dois dias se joga em Bruxelas já não é susceptível de conviver com indefinições, adiamentos, promessas ou fé na tolerância dos mercados. Esta cimeira acontece depois de o inimaginável ter acontecido: o contágio da crise chegou ao gigante espanhol e ameaça instalar-se em Itália, a terceira maior economia da zona da moeda única.

Se não houver uma resposta colectiva, as probabilidades de o euro entrar em colapso são reais, como são reais os cenários que esse desfecho coloca: regresso a moedas nacionais sem valor, corrida aos bancos, inflação, regresso ao controlo de capitais e de câmbios, encerramento de mercados, falências em série, incluindo a do Estado, e níveis ainda mais inimagináveis de desemprego. Todos os líderes europeus têm consciência de que a catástrofe do euro será uma tragédia. A vaga crença de que o realismo ainda subsiste entre os líderes dos 17 países do euro é ainda a melhor esperança de que este cenário dantesco vai ser evitado. O que é irremediavelmente pouco.

2. O problema é que não há soluções milagrosas e muito menos consensuais na mesa dos líderes europeus. As feridas abertas pela ausência de alicerces institucionais estão mais vivas do que nunca. As divergências sobre os timings e as prioridades entre os dois principais protagonistas, François Hollande e Angela Merkel, ergueram um muro que não só separa posições como abre brechas no eixo fundamental da construção europeia. Merkel tem razão ao dizer que só pode haver mutualização de dívidas quando houver mutualização dos controlos orçamentais e fiscais; Hollande tem razão ao dizer que a urgência da situação exige um papel mais interventivo dos fundos de estabilização financeira no mercado da dívida e do BCE e a criação de eurobonds a prazo. Ambos têm razão, mas nenhum parece disposto a ceder aos argumentos do outro. Por isso, as perspectivas são sombrias. Por isso se pede realismo, que, não sendo capaz de produzir uma solução boa, pode ao menos evitar o cenário péssimo de uma não-solução. O tempo urge e em jogo está o futuro de milhões de europeus.

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