Os prodígios da ilha do Corvo

Dois euros deviam chegar para o parquímetro, não me antevia sentada no cinema as três horas e dez minutos do filme, desde quando é que a ilha do Corvo pedia tal fôlego, mais de três horas aquela pedra no Atlântico habitada por engano, quantos eram os corvinos meus distantes irmãos, língua e pátria comum, 400, 400 e tal?

Mas quase logo a seguir e o espantoso é que foi mesmo quase logo a seguir, enterrada na penumbra da sala, percebi que nenhum adjectivo - sempre uma armadilha é certo - chegava ou servia. E, de resto, elegê-los segundo qual fonte, se havia tantas: a que jorrou assombro, a que derramou espanto, a que trouxe estranheza? A da compaixão, a da pungência? A do esquecimento? Não escolho, não sei. Fazê-lo seria trair os dons que brotaram dessas fontes. Prefiro a fidelidade - única maneira de os merecer - aos dons e prodígios de que é feito este filme que está sempre a lembrar-nos que é na Terra não é na Lua que aquilo existe. E se parece a Lua, santo Deus, ou seja lá onde for, mas não neste mundo... Um bocado de rocha arredondada e breve, que dá pelo nome de ilha, submersa na zanga do mar que ali parece não conhecer outra forma de vida senão a da fúria e do seu brado; quase nenhuma árvore e que árvores querem partilhar aquele molhado desamparo? Lá ao cimo, a coroa da cratera do que foi um vulcão, cá em baixo, uma branca mancha de casas, atemorizadamente unidas umas às outras, contra marés e ameaças. No meio... nada, ou quase. Um bocado de rocha de quem quase ninguém ouviu falar e poucos quiseram devidamente saber, quando muito terá havido incursões velozes no barco desconjuntado que traz víveres e animais, na avionete que pousa na pista artesanal, mas logo volta a subir para nuvens que a levem a melhores vidas. Os da ilha ficam, os outros, sempre escassos, sempre fugidios, partem.

Mas Gonçalo Tocha ficou. Ficou muito tempo, voltou muitas vezes. Eu agradeço-lhe, nem ele sabe quanto. E ainda mais que tenha querido filmar tudo, como logo avisa: o mar e o vento, o céu e a terra, as vacas e os porcos, os rostos e gestos, uma motorizada que desce, uma camioneta que sobe no traço negro da única estrada. Uma porta que se abre, a récita sincopada do terço, dois vultos na rua deserta, a televisão acesa no café, uma menina que aprende canto, um alemão que toca num piano desafinado, a morte selvática do porco, um inglês silencioso que ama pássaros, o cais sempre afogado em ondas que tudo varrem e afogam, ilha de sempre inverno. Uma mulher que cose, outra que faz queijo, outra que fabrica um barrete de lã azul e há-de estar a fazê-lo enquanto durar o filme, um não avança sem o outro, irmãos de sangue nesta saga. Sim, as gentes dali. Um vagar que nenhum ponteiro mede - e porque se haviam de apressar? - uma solidão sem medida, olhares vazios por nunca haver "amanhãs" e já nem se lhes pedia que cantassem, apenas que existissem. E a espessura e a força e a aspereza que de tudo isso escorre. Para o mar, para o nada, para nós.

As gentes, sim, o filme está "ocupado" por elas e nem sequer interessa que sejam só isto ou não sejam bem isto. É fácil filmar o mar e o céu, "filmar" a alma é para raros. Descobrir onde ela está, aprisioná-la dentro do vento, estendê-la ao longo da solidão, enrolá-la e desenrolá-la, ouvindo-a falar, lembrar e chorar, isso é que não é de certeza para todos.

E eles, pasme-se, eram só dois, Gonçalo Tocha fixava a imagem, Dídio Pestana capturava o som e de vez em quando falavam um com o outro para nós ouvirmos.

Por isso agora, hoje, daqui em diante, já não vai poder ouvir-se falar da ilha do Corvo, arquipélago dos Açores, Portugal, como se nada fosse. Aquilo passou a ser connosco, ficámos contaminados e isto sim é um prodígio. E um dom.

Volto a agradecer.

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