Os cinemas do bairro

Explicar às novas gerações o que é um cinema de reprise é quase o mesmo que falar-lhes do paleolítico

As obras no Cinema Europa começaram finalmente, mantendo-se, e ainda bem, parte da emblemática fachada do edifício. Em princípio, foi anunciado que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai exercer o direito de opção de compra de parte do espaço para a criação de um equipamento cultural. Depois de tantos anos ao abandono, o símbolo de uma geração que cresceu e ainda vive em Campo de Ourique vai finalmente ter uma solução sensata e equilibrada para os seus proprietários. Esperemos que seja igualmente para os moradores de um dos bairros com mais carisma cultural em Lisboa.

Os moradores de Campo de Ourique mostraram bem a sua exigência no último Orçamento Participativo da CML, já que, para além da questão referente ao Cinema Europa, votaram num equipamento para a Praça João Bosco (quiosque e parque infantil), no jardim até agora tão desprezado, mesmo em frente ao Colégio Oficinas de São José e ao (lindíssimo) Cemitério dos Prazeres (um Père Lachaise lisboeta) - visitado por muitos turistas no passeio dos eléctricos 25 e 28. O Cinema Paris, pelo contrário, continua a degradar-se de dia para dia e até dá arrepios passar à porta e ver na fachada do edifício uma tela muito feia a dizer: "A VERGONHA AINDA NÃO PASSOU POR AQUI!" O Cinema Alvalade, localizado noutro carismático bairro da cidade, é um razoável exemplo de recuperação, principalmente ao nível do fluxo de público, que bem podia ser pensado e aplicado ao Paris e ao Europa. Porque Campo de Ourique merece estes dois cinemas e aqui há espaço para outras programações cinéfilas, para além das do mainstream, das salas da Zon no Centro Comercial das Amoreiras. Em pleno Verão lisboeta, com as salas dos multiplex com blockbusters em cartaz, recordei-me dos tempos áureos dos Cinema Europa e do Paris e das suas sessões de reprise (reposições). Os dois cinemas foram em tempos grandes salas de estreia, passaram depois a apresentar apenas sessões de reprise até fecharem ou serem utilizados para outros fins, como foi o caso do Europa, para estúdio de televisão. Mas na verdade nunca perderam aquele delicioso estigma do cinema do bairro.

Explicar às novas gerações o que é um cinema de reprise é quase o mesmo que falar-lhes do paleolítico. Na verdade, as grandes salas do eixo da Avenida da Liberdade (São Jorge, Tivoli, Condes, Éden) e outras da Baixa, que estavam quase sempre esgotadas com grandes estreias em cartaz (o último recurso era conseguir um bilhete na Agência Abep dos Restauradores), coexistiam com os cinemas de bairro, espalhados por toda a cidade. Eram os templos das memoráveis sessões duplas, das reposições, de filmes com uma vertente popular ou de arte e ensaio, sujeitos por vezes aos cortes da censura: lembram-se do grito: "Ó marreco olha a tesoura!!!"?).

O chamado cinema de culto chegou muito mais tarde e é quase uma invenção pós-moderna, que culminou na grande eclosão dos festivais. Culto mesmo era ir ao cinema ver determinado filme e não apenas ir ao cinema. Vivia-se e sobrevivia-se no cinema. Entrava-se por vezes numa sala às três da tarde e saía-se às duas da manhã, depois de terminada a sessão da meia-noite. Namorava-se no escuro do cinema e havia até quem fizesse muito mais, sem que a moral pública se importasse muito com isso e impusesse multas ou restrições.

O cinema era um mundo à parte ou uma forma de conhecer o mundo. Era um espectáculo acessível, tendo em conta o conhecimento que nos proporcionava em apenas uma sessão. Era a forma mais natural e filosófica de passar o tempo. Por isso, os cinemas de bairro podem, além de garantir um público cinéfilo mais exigente, representar ainda um refúgio para a nostalgia dos reformados e a base da formação cultural das crianças e dos jovens. Para quem era um miúdo de bairro, ir ao Europa ou ao Paris era uma festa, uma ida à Terra do Nunca. Não havia coca-cola nem pipocas, nem as compras no centro comercial. Era mesmo ir ao cinema! Jornalista

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