Os assassinos triunfaram em Angola?

"A justiça incita-me a falar, jamais adulei ninguém"

Rubén Darío. Brindis a los presidentes del Salvador y de Nicaragua, Poesias Completas, Madrid, Aguilar, S.A. de Ediciones, 1952, p. 89.

Diz o poeta mexicano Renato Leduc que quando se fala do tempo perdido algumas pessoas acreditam que os santos choram. Que choram principalmente diante dos espelhos da memória povoados de monstruosidades. Não sei se isto é verdade, só os santos o podem confirmar. O que sei é algo de muito concreto. Algo sobre um país chamado Angola que se mira diante de um espelho de grandes horrores - os sinistros acontecimentos de 27 de Maio de 1977; um país onde milhares de pessoas protestam e choram os parentes que um dia foram desterrados para a morte marcados a fogo por altos funcionários do Estado. Choram por não saber sequer o nome do pedaço de terra que cobre os despojos dos seus entes queridos; mas choram sobretudo de revolta ante a indiferença dos detentores do poder político que persistem em não dar nenhuma satisfação acerca do desaparecimento forçado de tantos cidadãos, ao mesmo tempo que fazem do silêncio a táctica com que pretendem apagar o passado e não se pense mais nele.

É realmente chocante esta face por trás do espelho: o comportamento dos governantes angolanos que se obstinam em ignorar a insistência do protesto nacional na expectativa de que a verdade sobre o 27 de Maio se evapore para sempre. Nada menos do que o contraponto da "sábia virtude de conhecer o tempo", assim diria o mesmo poeta hispano-americano. Durante aproximadamente dois anos - de 1977 a 1979 -, o Estado e o Partido, por obra de monstros e obcecados instalados nos mais altos patamares do poder, derramaram sobre Angola um verdadeiro inferno de terror que se traduziu em golpes de sequestro, atrocidades e torturas contra milhares de cidadãos. A repressão foi tão violenta que ainda hoje o país estremece sacudido por espasmos de comoção. Os principais assassinos simbolizam o que eu chamo de as Cinco Bestas do Apocalipse. São eles: Agostinho Neto (Presidente da República), Lúcio Lara (secretário do Bureau Político do MPLA), "Iko" Teles Carreira (ministro da Defesa), João Lopes "Ludy" e Henrique Santos "Onambwe", estes dois últimos chefões dos serviços secretos, a DISA. Nenhum dos brutais crimes que se cometeram deixou de ter a sua chancela. Guiados por um revolucionarismo puramente sanguinário e barbaresco, estes homens congeminaram a mais negra carnificina de que há memória nos anais da História angolana.

É um facto: sob o reinado de Neto, o país transformou-se num deserto de sofrimentos e de profunda tristeza. Aos órgãos de Segurança, às Forças Armadas e às forças paramilitares confiou-se o papel trágico e ominoso de disseminar o Terror. Muitos dos seus servidores deixaram-se converter em mercadores da morte, em delinquentes criminais. As vítimas foram tratadas sem qualquer limite nos métodos. Cada um tinha carta-branca para moer os miolos e os corpos dos presos e para os reduzir a "poeira do campo", segundo uma expressão favorita de Lavrenti Beria, o todo-poderoso chefe do aparelho repressivo da União Soviética na era de Stalin. Em nenhum momento se observaram normas ou procedimentos de respeito pela vida humana; brutalizava-se com requintes de malvadez. Negou-se aos acusados o acesso aos tribunais. Os extremos de violência foram tais que se mataram as pessoas da mesma forma que se mata um piolho. Causando-lhes os maiores sofrimentos. A vingança do Grande Chefe tinha de ser exemplar e terrível: abater a esquerda pró-soviética do regime que se mostrava crítica em relação aos desvios da Revolução; abater os militantes menos ortodoxos e aduladores de Neto e também os arautos mais destacados de políticas reformistas dentro do Movimento. Um cenário protofascista e maniqueu.

É censurável a linguagem utilizada nos últimos anos pelas cúpulas do MPLA que procuram isentar de responsabilidades os figurões envolvidos nas matanças do 27 de Maio. Argumentam que a tragédia acabou por ser produto de excessos de zelo e de erros praticados pelos cães de fila da DISA e por militares isolados. Uma explicação capciosa. Tão pusilânime e tão maligna como a montanha de cadáveres que ensanguenta a memória nacional. Não se pode "esquecer" que o desaparecimento forçado é um crime que, à luz das leis internacionais, não se extingue. Quer dizer, não prescreve enquanto se continuar "a ocultar a sorte e o paradeiro" das pessoas desaparecidas. Não importa quem desfechou os tiros ou quem escondeu corpos em locais incertos para os fazer desaparecer.

Na extensa cadeia de crimes, todos são culpados, do topo à base. Uns por serem os autores ideológicos das chacinas, outros por serem os autores materiais. Por conseguinte, o argumento sobre o excesso de zelo é abominável e logo ganha direito a enfileirar ao lado das afirmações mais torpes produzidas por ex-ditadores. Um dos melhores exemplos é o general Videla, da Argentina. Confrontado com os quesitos de acusação no tribunal que o julgou, refugiou-se de maneira taxativa no mesmo argumento. Ele não tinha culpa, a responsabilidade recaía naqueles que em baixo, na hierarquia do poder, haviam incorrido em excessos isolados.

Creio ser arriscado desculpar Agostinho Neto. Isso equivalia a emparelhá-lo com líderes frágeis que mandam pouco, pelo que seria de supor que ele não sabia das atrocidades. Neto de modo algum se ajusta a tal retrato. Ele assemelhava-se a Argos, personagem da mitologia grega, um gigante de cem olhos que, mesmo a dormir, se conservava vigilante com metade dos olhos. Nada lhe escapava.

Encerro com esta pergunta: doravante qual vai ser a posição dos dirigentes de Angola a respeito do 27 de Maio? Vão continuar a amortalhar no silêncio a memória desse passado tenebroso e a ser cúmplices de tantos crimes, ou vão ter a coragem política de finalmente redimirem o país e o MPLA de tantos opróbios? Se não se fizer isto, a nossa História, será - parafraseando Günter Grass, escritor alemão - como uma retrete entupida: "Puxamos o autoclismo, puxamos, mas a porcaria continuará a vir para cima."

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