Obviamente, despeçam-se

Tem toda a razão o nosso primeiro-ministro: o desemprego não é nenhuma tragédia. É uma oportunidade para mudar de vida. Portanto, uma oportunidade para o crescimento interior do indivíduo, neste caso, do português. Com o desemprego, aprende o português (e a portuguesa) a encontrar resistências à pieguice, a ficar mais forte, com mais desenvoltura de espírito e coração.

Estar desempregado só traz vantagens. A primeira de todas é que se descobrem novas formas de poupar. E como precisamos dessa aprendizagem, nós, os portugueses, que tanto esbanjámos e continuamos a esbanjar, que levámos este país ao estado catastrófico em que ele se encontra! Sim, porque a culpa não foi dos governos, conluiados com a banca e os mercados financeiros. Quando se ouvia na rádio aqueles anúncios a dizer "Não tem casa porque não quer!", ou "Não tem carro porque não quer!", quem nos mandou acreditar e ir fazer empréstimos? Devíamos ter tido tino e lido nas entrelinhas, e percebido que aquilo era tudo uma manobra de diversão para nos conduzir a poupar. Nós é que fomos incautos e nos deixámos corromper. Esbanjadores, pois. E corruptos - e gananciosos.

Por isso sabemos agora que devemos fazer, e bem feitinho, o trabalho de casa. Ora parte desse trabalho de casa é poupar, está claro. O que é infinitamente mais possível quando se fica desempregado! É esta, de resto, uma lógica muito simples e muito parecida com aquela que nos manda emigrar. No emigrar é que está o ganho, podíamos dizer; e, da mesma maneira, no estar desempregado.

Depois, além de fonte de aprendizagem de poupança, o desemprego é como a necessidade: aguça o engenho. Depressão?! Mas que depressão pode provocar ser-se despedido? O que é preciso é arregaçar as mangas. Tem-se um emprego? Ganha-se um ordenado certo ao fim do mês? Paga-se o aluguer da casa e a prestação do carro? Mas isto, além de coisa enfadonha, é um desaproveitamento de energias: o emprego é a repetição, o hábito entranhado, a falta de imaginação e de criatividade. Por seu turno, o desemprego ajuda a combater essa inércia de ir todos os dias trabalhar, uma chatice. E quanto mais velho se for, mais necessidade se tem de treinar o cérebro e exercitar o espírito, portanto, e contrariamente ao que se ouve dizer por aí, mais apto se está a usufruir dessa oportunidade de ouro.

O pequeno comércio (o que dele resta) não é solução? Não há problema: basta bater à porta de uma grande empresa, de preferência uma multinacional, de capital sólido e desalavancada, levar currículos bem organizados, mostrar os dotes, batalhar, e de certeza que alguma coisa se consegue arranjar. Sobretudo, se se tiver mais de cinquenta anos. Pois não é isto óbvio? Só quem não quer é que não arranja emprego, só quem não quer é que não tira o proveito devido de ter ficado sem ele. É a lei do mercado, livre como um pássaro, esvoaçando sem fronteiras sobre o país e a Europa. A verdadeira democracia, em suma. Lei sem leis da sobrevivência do que é, pelas piores razões, mais forte, espécie de adaptação nos nossos dias do Senhor da Moscas.

Ah, fôssemos nós os mestres dos nossos governantes, e não eles os sabedores mestres, concluiríamos, em gesto magnânimo e altruísta: "Obviamente, despeçam-se". Assim poderiam também provar desta grande oportunidade de vida.

Mas não concluímos nada, resta-nos neste triste presente fazer trabalhos de casa. As conclusões, quem puder, no futuro (se ainda o houver), que as tire -

Poeta e professora universitária

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