PÚBLICO -

O fantasma de Bin Laden ou o Eixo do Bem

Este famoso desvio não é daqueles que se esquecerão tão cedo. Ele mudou os tempos que nos foram dados que viver

Tudo que é necessário para compreender a saga "pseudo-redentora" e maldita que culminou no ataque às torres de Nova Iorque e fechou provisoriamente com a morte sem julgamento de Bin Laden, tem a sua bíblia portátil no livro de Lawrence Wright A Torre do Desassossego (edição portuguesa Casa das Letras).

O seu ensaio economiza a proliferação automática de centenas de comentários que a inédita comemoração do espectacular acontecimento do 11 de Setembro suscitou e continua a suscitar. O mais empolgante dos romances empalidece ao lado dessa minuciosa reconstituição jornalística na melhor linha da tradição americana. Lendo-o, pelo menos, esse acontecimento deixa de ser percebido como um fenómeno quase "sobrenatural" ou sem causa, expressão do "mal absoluto" de novo género, e mais inexplicável e sobretudo inexpiável que o do Holocausto. Com Lawrence Wright compreende-se, se já não se adivinhava, que o "sacrílego" ataque não foi um acontecimento puramente irracional, opaco, contingência pura da ordem da loucura, mas a peripécia de um combate bem anterior ao gesto ou à gesta de Bin Laden. Esse combate tem há muito como actores interligados e até cúmplices, de um lado os Estados Unidos, no seu novo papel hegemónico sem antagonista depois da queda do Muro de Berlim (e até antes) e do outro o mundo árabe, não como inimigo potencial por motivos religiosos ou culturais, mas como objecto privilegiado dos interesses americanos (e latamente ocidentais) que desde os tempos de Mossadegh e do Xá da Pérsia são "vitais" para os Estados Unidos.

Bin Laden é o herdeiro directo e o concentrado consciente e assumido não apenas de um histórico ressentimento do Islão contra o Ocidente, mas igualmente de contradições pessoais e políticas que na primeira parte da sua acção anti-imperialista se articulou com o combate anticomunista dos Estados Unidos. Como "saudita", e até a título familiar, o seu destino está ligado ao do imperialismo económico sem fronteiras dos Estados Unidos. Mas cedo se deu conta de que esse aliado privilegiado na luta contra o comunismo como ideologia ateísta incompatível com o Islão era também e sobretudo, não só o aliado mais que privilegiado do jovem estado de Israel, como, de algum modo, o Grande Israel. A luta de morte contra um deles implicava, na sua nova opção de "converso", que o seu combate ideológico, cultural e religioso se polarizasse contra o que já era, há muito, para uma grande parte do mundo islâmico, o Grande Satã.

Sob este pano de fundo, a idade ideológica que dominou o combate político do Ocidente desde a revolução de Outubro (para não falar da herança reciclada da Revolução Francesa) mudou de paradigma. Não o de um muito sofisticado conflito entre "civilizações", mas o de leitura mais arcaizante, aquela que convém às oposições ou detestações que relevam da esfera mais decisiva da crença. Com a queda do Muro de Berlim e o enfraquecimento da tradição iluminista, o recalcado por ela volta outra vez sob a forma de "fundamentalismo", não à moda medieval puramente religiosa e condicionante das práticas de uma sociedade, sobretudo na ordem ética, mas como referência identitária servindo de pedestal à autonomia política. Paradoxalmente, o episódio, na aparência anómalo e fantástico do 11 de Setembro - que a dez anos de distância tem sido evocado por gente responsável (Miliband entre outros) como uma espécie de não-acontecimento - não tem leitura significativamente histórico-mítica, enquanto improvável clash entre dois fundamentalismos: o assim nomeado e que seria (ou é) por excelência o que tem neste momento no islamismo a sua encarnação histórica, e o americano, de raiz messiânico-bíblica, na sua essência ideal e que é pura e simplesmente o "modelo americano" vivido como as tábuas da lei em todos os domínios na ordem da realidade.

Não é por acaso que o imaginário actual é literalmente de ordem fantástica e fantasmagórica reciclando um pouco cansativamente o eterno combate entre o Bem e o Mal nos termos arcaicos e mágicos dos eternos contos infantis. Ou até deslocando para espaços extraterrestres os mais que terrestres conflitos entre dominados e dominantes (de dominadores de nova espécie sobre os canónicos dominados). Ao apocalíptico ataque às Torres o traumatizado - e com razão - Presidente dos Estados Unidos vai conferir, a exemplo de Reagan, uma dimensão imediatamente místico-mítica desse combate entre o Bem e o Mal. Ainda não saímos desse contexto de ciência-ficção, com a América como o império do Bem e Bin Laden no papel assumido de mau da fita, enquanto, ou antes, de anjo do Mal. De um "mal" que, como no caso paradigmático do Diabo (ao menos no Ocidente), convém não evocar porque ele comparece sempre. No tempo da Ideologia, tempos de Che Guevara, o cadáver do adversário foi "cristãmente" integrado na sua humanidade. Desta vez, o que esteve (ou está em causa) é de outra ordem. Bin Laden morto não terá imagem para adorações futuras. Será reenviado ao nada e expulso da ordem humana. As exigências do eixo do Bem são tão implacáveis como as do Mal. E no caso presente até se compreende.

Contudo, é uma ilusão imaginar que o impacto da tenebrosa epopeia ou antiepopeia de Bin Laden e o que nela o ultrapassa como em tudo o que conta no que chamamos História terminou. Há dias Francis Ford Coppola, em Veneza, ousou sugerir que por detrás desse atentado satânico não haveria apenas uma tenebrosa pulsão maléfica digna de cenários apocalípticos que tanto sucesso e dinheiro trazem a Hollywood, mas também "algumas sérias razões". E que seria necessário não só para a América, mas para o mundo que ela fascina ou esmaga, ter a audácia de contemplar - até para realmente a exorcizar - essa nova imagem de Medusa da História.

Durante séculos o Ocidente - então quase só a Europa - viveu numa espécie de guerra intermitente com o mundo islâmico com que desde o início da sua expansão se defrontara. Como se fossem dois planetas que mutuamente se desconheciam mais até do que se temiam. Com a ascensão da Europa a "rainha do mundo" e luz da História, quando os europeus eram do género Montesquieu, começa uma época de fascínio - sobretudo da parte da Europa, como é nossa tradição - entre ambos. A Europa e as suas invenções suscitam a curiosidade e interesse do "extático" mundo islâmico. Com a época imperialista da Modernidade o fascínio converteu-se pouco a pouco em desconfiança. Só recentemente para uso comum se começa a fazer a história desta paixão assimétrica entre Oriente e Ocidente. Paradoxalmente, os mais fascinados e deslumbrados não somos nós, europeus, mas o impensável persa islâmico. Bin Laden foi só um entre os milhares de muçulmanos para quem o encontro com a cultura europeia, a acção da Europa, em vez de deslumbrar, revelou a sua irredutível originalidade e acordou a sua consciência identitária, e, com ela, o orgulho e dignidade da sua antiga e brilhante civilização marginalizada - ou automarginalizada - relativamente à omnipresente Europa.

Não foi na América e em relação à América (ou só tardiamente em relação à sua fase hiperimperialista) que os reflexos do antigo ressentimento islâmico ganharam consistência e se converteram em imperativos de acção. No seu livro fascinante, Lawrence Wright evoca o percurso desses "deslocados" do islão, como os designa, que em contacto com a cultura europeia se transformaram nos fundamentalistas que não precisavam de ser nas suas pátrias de origem. Descobriram ao mesmo tempo que os "ocidentais" não eram tão "superiores" como eles os imaginavam, e que eles, islâmicos, tinham a sua identidade, valores, e sobretudo uma religião que os vestia e compensava de tudo. Compreenderam acima de tudo, que o Ocidente, senhor do mundo, era vulnerável e que, se fosse preciso, podia ser ferido no seu coração. Este simples pensamento vivido com convicção e, na nossa perspectiva ocidental ,com fanatismo, gerou no espírito de Bin Laden a ideia de uma cruzada de um novo género como resposta à genérica hegemonia ocidental.

Recentemente um dos mais brilhantes cronistas europeus, Timothy Garton Ash, escreveu que o 11 de Setembro seria apenas "um desvio" na História. Será. Até porque tudo é desvio, ou nem isso, na estrada mais que tortuosa e enigmática da História. Acontece, todavia, que este famoso desvio não é daqueles que se esquecerão tão cedo. Ele mudou os tempos que nos foram dados que viver. Que mais não fosse, Bin Laden pôs o islão no ecrã do mundo como actor de uma História onde até então figurava mais como fantasma ameaçador do que como referência política e cultural tão mítica como todas as outras. E também a esse título o 11 de Setembro não foi como muitos de nós teríamos desejado um mero fait-divers do nosso tempo tenebroso, mas um sinal ambíguo endereçado ao futuro, como escreveu Vasco Pulido Valente.

Ensaísta. Lisboa, 12 de Setembro de 2011.

Este artigo será publicado no número 71 da revista de Reflexão e Crítica Finisterra.

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