O Euro 2012 explicado a Angela Merkel

É o Euro 2012 que reflecte a crise do euro ou a crise do euro que se tornou semelhante ao futebol?

No Sermão pelo Sucesso das Armas de Portugal contra a Holanda (1640) o Padre António Vieira dirigia-se a Deus "protestando e argumentando" as razões pelas quais os portugueses e não os holandeses deviam ser favorecidos. E escrevia: "Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos da vossa providência e nós os deixados da mão? Nós os esquecidos de vossa memória? Nós o exemplo de vossos rigores?"

Lembrei-me deste sermão há mais de uma semana, quando não era certo que tivéssemos ganho aos holandeses e pudéssemos ter jogado a meia-final de ontem. Do que gosto neste texto é o autor não dar por adquirido de que lado Deus vai estar. Isso é objecto de uma argumentação e, consequentemente, a possibilidade de serem os "ímpios" os favoritos é pelo menos admitida. Há algo de extraordinariamente moderno nesta capacidade de questionar, em vez de dar a vontade de Deus por adquirida, enquanto simples questão de fé.

Talvez nos fizesse falta um pouco da imaginação e, porque não dizê-lo, dessa capacidade de diálogo do autor do Sermão de Santo António. Paulo Bento e os jogadores portugueses têm-se mostrado à altura desse poder de imaginar com inteligência a maneira de superar os obstáculos neste Europeu de futebol que vem fazendo sombra às decisões dramáticas que os líderes europeus enfrentam na cimeira que hoje começa. Quando o Euro 2012 desmontar a tenda, no domingo, em Kiev, a moeda única voltará a ser o único euro e o véu da ilusão desaparecerá. Por estes dias, com a crise e o campeonato a correrem em paralelo, têm-se repetido as metáforas sobre o futebol enquanto espelho da política. Mas é o Euro 2012 que reflecte a crise do euro ou a crise do euro que se tornou semelhante ao futebol?

Na verdade, a comparação é generosa para os treinadores de futebol e incómoda para os líderes europeus. Os primeiros habituaram-se há muito a ultrapassar as fronteiras, por mais relevante que seja o papel das selecções enquanto símbolos nacionais. E isso não tem tanto a ver com a existência de jogadores naturalizados como com as formas tradicionais de jogar de cada país serem hoje muito menos importantes do que eram. Treinada nos últimos anos por um transalpino, Fabio Capello, a selecção inglesa foi eliminada deste campeonato por ter jogado à italiana perante... a Itália. A Alemanha de Joachim Löw acrescentou às qualidades tradicionais da Mannschaft - organização, fiabilidade e eficiência - o estilo criativo de jogadores como Ozil (de ascendência turca) ou Gomez (de ascendência espanhola).

Não é preciso ser um especialista para compreender como o futebol se internacionalizou e misturou tradições, mesmo ao nível das selecções. Não acaba por ser paradoxal que, no plano da política europeia, os líderes estejam tão agarrados às estratégias e aos interesses nacionais e o Norte esteja a afastar-se do Sul?

Se Angela Merkel fosse a treinadora da selecção alemã, o mais certo é que esta, em vez do estilo generoso que tem hoje, fosse como a Grécia, agressiva e remetida à sua defesa. A estratégia da chanceler Merkel na gestão da crise do euro baseia-se mais nas emoções do que na racionalidade: está ao nível de um treinador de bancada. A emoção central é o medo, cristalizado a partir de uma leitura histórica equívoca das consequências da depressão de 1929. Na sua relação com os países devedores, a Alemanha segue a estratégia de os empurrar até à beira do precipício, salvando-os no último momento. O racional é que só sob o efeito do medo do fim do euro e do cataclismo que daí resultaria os países indisciplinados poderão curar-se e, portanto, merecerão ser ajudados. No entanto, o que os economistas dizem é que os países já resgatados ou em vias de o ser ficarão escravos das dívidas e nunca conseguirão reerguer-se. O discurso sobre o crescimento, o mantra do partido antialemão, liderado pela França, não chega para mudar as coisas. Sobretudo enquanto os bancos continuarem fechados sobre si próprios.

O medo e a desconfiança conduziram ao discurso da punição do Sul; mas essa reacção exprime também o medo da Alemanha em liderar e só considere fazê-lo sem assumir qualquer risco. Por outras palavras, em jogar como se fosse a selecção grega. Talvez por isso a história de mais uma cimeira considerada decisiva, como a que hoje começa, seja a história de uma Alemanha que se derrota a si própria e, sem o saber, se condena a si mesma à irrelevância a que julga estar a condenar os países do Sul.

Podem enviar uma tradução do Sermão pelo Sucesso das Armas de Portugal contra a Holanda para Berlim? Um pouco de sabedoria do Sul ajudaria a saber que nas grandes batalhas Deus nem sempre está do lado previsto.

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