Lasantha Wickramatunga e a morte anunciada do Sri Lanka

Um bom jornalista não é apenas um relator de factos, mas uma voz através da qual falam aqueles que não podem falar

Lasantha Wickramatunga, ao contrário de Santiago Nasar, o personagem de Gabriel García Márquez, sabia que ia morrer. Só lhe faltava saber quando. Assim, com muita coragem e determinação, escreveu ele próprio o obituário da sua morte anunciada. Um texto que foi publicado postumamente no jornal que dirigia, o Sunday Leader, um dos principais jornais do Sri Lanka: And Then They Came for Me (www.thesundayleader.lk/20090111/editorial-.htm). O Sunday Leader tem mantido, desde que foi fundado há 15 anos, uma postura crítica e independente face à actuação governativa e à crescente corrupção. Também defende uma abordagem neutra e imparcial em relação à guerra civil que dura há já 25 anos com os Tigres Tamil e na qual inúmeras violações de direitos humanos têm sido cometidas em ambos os lados das barricadas.
Este gesto de coragem suscita três reflexões.
Primeira: a espantosa resistência de um homem que, mesmo sabendo que ia pagar o preço mais alto de todos, não deixou de cumprir o seu dever enquanto jornalista. Pai de três filhos, Lasantha afirmou que morria de consciência tranquila e que preferia morrer a ser um cobarde perante uma crescente campanha de intimidação de todos os "órgãos da liberdade" no seu país. Mesmo depois de ter sido alvo de dois espancamentos brutais, Lasantha não desistiu de escrever sobre o que considerava ser a apropriação do espaço público por uma rede clientelar centrada no Governo e que hipoteca o futuro do Sri Lanka.
Segunda: esta morte é um claro sinal de que algo vai muito mal no seu país. O Sri Lanka, antigo Ceilão ou a mítica Taprobana, tem atravessado várias tormentas ao longo da sua história, mas nos últimos tempos os crescentes casos de corrupção têm fragilizado a sociedade civil. A corrupção tem sido um cancro difícil de erradicar e o Governo tem apertado a sua tenaz à volta daqueles que têm uma perspectiva crítica da sua actuação e das suas políticas. O assassínio de Lasantha é um prenúncio de que 2009 trará tempos ainda mais difíceis e menos democráticos ao Sri Lanka.
Terceira: o sacrifício deste homem é uma chamada de atenção para o papel vital dos jornalistas e da liberdade de expressão. Uma imprensa livre e independente é um ingrediente fundamental para vigiar, promover e proteger as democracias liberais. Lasantha Wickramatunga era uma voz incómoda e sabia que um bom jornalista não é um mero relator de factos e acontecimentos, mas antes uma voz através da qual falam aqueles que não podem ou não sabem falar. Sabia que as palavras permitem respirar mesmo quando o ar é irrespirável e a tensão sufocante. Por estas razões, os jornalistas estão na linha da frente e são dos primeiros alvos a abater. Como avisou Lasantha, "amanhã serão os juízes".
Lasantha compreendeu a importância da sua missão e preferiu morrer por ela. Deixou o desejo de que o seu assassínio não fosse entendido como uma derrota da liberdade, mas antes como uma fonte de inspiração e união para todos aqueles que acreditam num Sri Lanka livre e democrático.
Há vozes que mesmo no silêncio da morte nos falam como ninguém. Investigadora do Instituto Estudos Políticos - Universidade Católica Portuguesa

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