God save the Queen... e a libra esterlina

Para o resto do mundo, a excitação britânica com o Diamond Jubilee da sua rainha não é compreensível

O próximo será um fim-de-semana prolongado em Inglaterra, de 2 a 5 de Junho, para assinalar os 60 anos de reinado da rainha Isabel II. Os mais excêntricos preparativos estão em curso, da mais recôndita aldeia à capital do reino, e outrora do império, a excitante cidade de Londres. ("When a man is tired of London - disse o dr. Johnson - a man is tired of life.")

Para o resto do mundo, esta excitação britânica com o Diamond Jubilee da sua octogenária rainha será tudo menos compreensível. À esquerda, os filósofos racionalistas considerarão absurdo o culto de um sistema hereditário que não é susceptível de escolha pelo indivíduo soberano. À direita, os filósofos irracionalistas dirão que a monarquia britânica é uma peça de museu que sobrevive hipocritamente, sem autenticidade, numa sociedade essencialmente igualitária. Fazendo a ponte entre aquelas duas correntes, os eurofederalistas dirão que o culto da rainha pelos ingleses é apenas mais uma expressão do seu nacionalismo insular e do seu arcaico desinteresse por uma Europa federal... bem como pelo euro.

Estas críticas estão todas muito certas, sobretudo de um ponto de vista lógico. Só que, como gostava de dizer Winston Churchill, "devemos precaver-nos contra a inovação desnecessária, sobretudo quando é ditada pela lógica". E esta é, em boa parte, a chave para compreender a monarquia britânica e a sua popularidade.

A Inglaterra teve a sua experiência precoce, no século XVII, com o choque irredentista entre doutrinas lógicas e absolutistas rivais. Carlos I e depois Jaime II defendiam logicamente a doutrina do direito divino do rei a governar e dirigir o seu rebanho. Cromwell e os puritanos igualitários defendiam logicamente a doutrina do direito divino dos "eleitos" a dirigirem o resto do rebanho. Os dois lados desprezavam a simples ideia de compromisso e desconfiavam de todas as instituições intermédias espontâneas e autónomas - as universidades, as empresas, as instituições locais, até as famílias - que não perfilhassem a "doutrina justa".

Este conflito entre doutrinas lógicas e justas rivais custou a Inglaterra a melhor parte do século XVII. Gerou uma guerra civil, uma república autoritária e uma restauração monárquica, inicialmente tranquila, com Carlos II, depois de novo intransigente, com Jaime II.

Foi então, em 1688, que um bloco central moderado emergiu. Uns eram monárquicos, outros republicanos. Mas convergiam na necessidade de pôr cobro às guerras dogmáticas entre doutrinas lógicas; e de reencontrar o quadro legal estável, consagrado na Magna Carta de 1215, que, garantindo a vida, a liberdade e a segurança das posses e dos contratos, permitisse também que a sociedade respirasse sem sobressaltos revolucionários - umas vezes mais para a direita, outras vezes mais para a esquerda.

Este compromisso implicava abdicar da ambição de "mudar o país" por qualquer facção particular, em nome de uma doutrina lógica particular. Diferentes doutrinas, de preferência não demasiado lógicas (isto é, irredutíveis), deveriam poder concorrer e dialogar pacificamente num lugar que já existia e não era preciso inventar: o Parlamento, composto por duas câmaras, a dos Lordes e a dos Comuns.

Para que esta rivalidade pacífica entre interesses e opiniões diferentes pudesse funcionar da forma mais aberta e elástica, seria prudente manter um ponto fixo em todo o sistema. Esse ponto fixo seria fornecido pelo monarca constitucional. Não pertencendo a nenhuma facção, o monarca garantiria a concorrência leal entre as facções. Representaria todo o país, situando-se acima das facções. Mas, para isso, teria de abdicar de querer "dirigir ou mudar o país". Deveria, apenas, servir o país; e tentaria inspirá-lo com o sentido de dever que distingue a gentlemanship. Este era o seu dever, não o seu direito.

Esta doutrina não é obviamente muito lógica e está cheia de imperfeições. Não consegue satisfazer nenhuma doutrina irredentista rival. Não é absolutamente democrática ou republicana. Nem é absolutamente monárquica ou, sequer, aristocrática. Não é, em rigor, uma teoria. É o resultado de uma longa experiência, de uma memória, e de uma disposição fundamental para usufruir a dádiva da vida, em vez de sonhar com um futuro perfeito, ou com um passado perdido.

Foi esta tranquila disposição para usufruir a dádiva da vida que gerou entre os ingleses uma atitude céptica perante grandes teorias, quer inovadoras quer restauradoras. É essa atitude que explica a sua sábia adesão à monarquia constitucional... bem como a sua sábia conservação da libra esterlina.

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