A crise do euro à luz de 1989

Pode bem acontecer que precisemos hoje na Europa de líderes do género de George Bush sénior

Este foi um fim-de-semana curioso na Europa. Nos noticiários, nos jornais, nas conversas, as pessoas suspendiam as opiniões e os prognósticos sobre o futuro, qualquer que fosse o tema. Todos aguardavam as eleições gregas. (Na altura em que escrevo, continuo a ignorar os resultados.)

Em Budapeste, a data foi escolhida para uma conferência sobre as revoluções democráticas de 1989 na Europa central e oriental. O local dificilmente poderia ser mais apropriado: o Museu da Casa do Terror, na Avenida Andrássy n.º 60, o edifício que albergara sucessivamente a polícia política do regime pró-nazi da Arrow Cross e, a seguir, dos comunistas pró-soviéticos. Hoje, o mesmo edifício serve de memória dos horríveis crimes praticados por aqueles dois totalitarismos ideológicos de sinal contrário.

Foi uma experiência sóbria. Promovida pela fundação alemã Konrad Adenauer e pelo próprio Museu da Casa do Terror, a conferência recordou os principais episódios da transição do comunismo à democracia naquele ano incrível de 1989. E procurou colocar em confronto o espírito pacífico, moderado, não ideológico, dos movimentos pró-democracia com o rígido dogmatismo ideológico dos regimes comunistas.

Talvez o aspecto mais inesperado da conferência tenha sido a enfática homenagem prestada a um líder ocidental usualmente esquecido nestas efemérides: o Presidente norte-americano George H. W. Bush (pai).

Um particular evento foi recorrentemente citado por vários oradores: o comentário de Bush perante as câmaras de televisão no preciso momento em que o Muro de Berlim começava a ser derrubado. Ele disse apenas: "I am very pleased." E terá passado a outro assunto. Dias depois, quando confrontado pelos jornalistas com a sobriedade deste comentário, o mesmo Bush terá dito que não era do tipo muito emocional.

Na altura, estas reacções foram criticadas por muitos quadrantes. Foi dito que Ronald Reagan nunca teria reagido de forma tão fria. Bush (que tinha servido Reagan como seu vice-presidente durante a década de 1980) foi então acusado de tecnocrata sem alma e sem visão.

Os conferencistas de Budapeste, de diferentes sensibilidades políticas, convergiram na defesa do comportamento de Bush. Recordaram que a sua preocupação central naqueles momentos dramáticos era a de não ameaçar a União Soviética e o seu líder reformista, Michail Gorbatchov. Em boa verdade, recordaram os conferencistas de Budapeste, esta prudência e moderação de Bush, assim como a sua excelente relação pessoal com Gorbatchov, foram ingredientes fundamentais para garantir a transição pacífica do comunismo à democracia - algo completamente inimaginável poucos meses antes.

Em vez de uma ruptura entre Bush e Reagan, este ponto de vista permite sugerir uma continuidade. Reagan sem dúvida foi um dos principais promotores do desgaste que levou à queda do comunismo. Mas Bush foi quem geriu essa queda, contribuindo decisivamente para que fosse pacífica e ordeira. Diferentes circunstâncias requeriam diferentes lideranças.

Pode bem acontecer que precisemos hoje na Europa de líderes do género de George Bush sénior. A crise do euro tem gerado tensões entre países europeus que seriam inimagináveis há um ou dois anos.

O caso grego é sem dúvida o mais sério, mas não é totalmente singular. Em vários países assiste-se a um crescimento eleitoral sem precedentes de partidos extremistas. Vozes exaltadas fazem-se ouvir em diferentes quadrantes. Uns querem expulsar a Grécia do euro. Outros querem que ela fique, mas não pague o que lhe foi emprestado. Em geral, cresce o número dos que dizem que precisamos de líderes visionários e de passos radicais na integração europeia.

Pela minha parte, sobretudo depois da conferência de Budapeste, sou de outra opinião. Há menos de 25 anos, estávamos bastante pior do que estamos hoje. A Europa estava ainda dividida por uma cortina de ferro. Hoje temos uma Europa reunificada e pacífica. Perante isto, qual é o valor real de existir uma moeda única que parece implicar regras uniformes para países com disposições e humores variados? A Europa reunificada existiu antes da moeda única, que aliás só abrange 17 dos 27 Estados-membros, certamente poderá sobreviver sem uma moeda única.

Quaisquer que tenham sido os resultados das eleições gregas, não creio que necessitemos hoje de líderes visionários. Precisamos, sim, de espírito de compromisso e moderação - o espírito que permitiu a transição democrática iniciada no ano feliz de 1989.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues