A carnificina

Todas as manhãs e tardes há carnificina à minha janela. É um bando de andorinhões a passar ao estreito tudo o que há de insecto voador. De vez em quando há uma melga ou um moscardo que entra pelo meu escritório adentro, suando, ansioso, à procura de um pouco de descanso. Implacável, eu enxoto-o das águas-furtadas, ao lado das telhas onde os Apus apus fazem os ninhos, para o céu aberto, onde é papado com muita perícia e pouca cerimónia.

Os andorinhões, com asas em forma de foice, não têm nada a ver (mas muito a voar) com as andorinhas. Têm pernas ainda mais curtas, são todos pretos e são incapazes de pousar. São maiores e mais mexidos. Mais mexidos do que as andorinhas? Como é que é possível? É possível. Como se pode confundi-los? A resposta está no nome que os portugueses lhe deram: andorinhões.

Dizem aqui ao pé que os andorinhões comem as andorinhas bebés. Quando eu protesto, junto das autoridades cá do sítio, baseado nos baluartes mais profundos da mais recente versão da Wikipédia, fustigam-me com verdades: cada bicho tem o seu manjar e todos os bichos do mundo (excepto o humano, que é guloso e indiferentemente omnívoro) têm um bicho que nasceram para apanhar e comer e, assim, sobreviver.

No primeiro andar, aonde os andorinhões não se dignam a descer, ainda há umas moscas reformadas, mas nervosas de mais, devido a sustos antigos, para pousar seja onde for.

Os andorinhões são um pesticida natural, que dá gosto sádico ver em acção.

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