Brasil

Adeus a "Doutor" Sócrates, o filósofo da bola

Sócrates foi capitão da selecção do Brasil em 1982 e 1986 dr

Morreu o antigo internacional brasileiro, aos 57 anos, na sequência de uma infecção intestinal. Com a sua ideologia influenciou um país contra a ditadura, com os pés maravilhou o mundo.

Adeus a Sócrates, o "Doutor", o jogador que faltava aos treinos para completar o curso de Medicina. Era o líder da linguagem simples, dentro e fora do campo. Na madrugada de domingo, com 57 anos, faleceu em São Paulo, um dos maiores ídolos do futebol brasileiro. Foram os repetidos anos de abuso que prejudicaram o seu fígado. "O álcool era um companheiro para conviver com parte da loucura dessa sociedade em que a gente vive", disse há uns meses.

Filho de um pai admirador dos filósofos gregos, Sócrates foi baptizado em homenagem ao famoso pensador, enquanto dois dos seus irmãos ficaram com os nomes de Sófocles e Sóstenes. Marcou uma era no futebol - foi um jogador de época - e na política brasileira (destacou-se pelas visões políticas que representava). Sempre com classe, era conhecido como o "Magrão" pelo corpo esguio e fintas curtas - não precisava de correr, o cérebro chegava lá com os seus pés. Tornou-se brilhante pela simplicidade. Para tornar o jogo mais fácil dava poucos toques na bola, não desperdiçava nenhum. E assim passeava a sua elegância com a bola no pé e a capacidade de organização das jogadas, sempre de cabeça erguida. Ficaram para a história os toques de calcanhar, a sua marca registada.

Depois da estreia no Botafogo, em 1974, foi para o Corinthians, em 1978, clube que o consagrou. Com o diploma na mão, começou a dar aulas com a camisola alvi-e-negra. Ao lado de grandes nomes como Casagrande e Palhinha, começou a formar uma equipa que chegaria ao auge no início dos anos 80. Mas o "Timão", apesar de ser forte, não se destacaria pelos seus títulos, dando a descobrir a frase de qualquer adepto corinthiano: "Ser campeão é um detalhe." Sócrates foi mais fino: "Não se joga para ganhar mas para que não te esqueçam."

Democracia Corinthiana

Quando todos andavam numa direcção, preferiu ir em contramão. Ousou ser diferente quando todos queriam ser iguais em tempos conturbados de ditadura no Brasil (o regime militar que durou entre 1964 e 1985). Sócrates dizia ser um paraense com nome grego e alma tupiniquim (grupo indígena brasileiro). Por isso, liderou a Democracia Corinthiana.

No início dos anos 80, foi o rosto desse movimento, para dar voz aos jogadores, eram eles quem decidiam através do voto as normas do futebol do clube de São Paulo, escolhiam o treinador, o horário dos treinos, participavam nas eleições do clube e, a maior das revoluções, aboliram a obrigatoriedade das concentrações. Estávamos em 1982 e a revolução fazia-se no Parque São Jorge. Naquela época, o sociólogo Adilson Monteiro Alves era o director do futebol do Corinthians, o que abriu a possibilidade para transformar completamente o clube. Instruído e articulado, Sócrates levou o emblema paulista a adoptar um sistema diferente. Instalou um novo regime.

Usou a voz para marcar golos, era a liberdade de todos os brasileiros, o cidadão que usou os pés para gritar por causas mais importantes do que uma qualquer partida de futebol. Com isso queria fazer do Corinthians um pequeno exemplo para o Brasil. Admirador de Marx, converteu-se na imagem da revolução brasileira contra a ditadura, quando esta entrava nos seus últimos anos. As imagens repetiam-se e nos estádios os seus fiéis seguidores (chegavam a ser 80 mil) levavam tarjas a dizer "Democracia", "Quero votar no meu presidente" ou "Direitos Já".

Comprometeu-se na política, envolveu-se nas "Diretas Já" (um movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais directas no Brasil entre 1983-1984). Falhou e foi para Itália, idolatrado na chegada pelos adeptos da Fiorentina, mas durou pouco (1984-85). Era a saudade.

Voltou ao Brasil para o Flamengo e depois para o Santos. Despediu-se onde tudo começou - no Botafogo, de Ribeirão Preto.

Os 30 dias perdidos

Sócrates vestiu outra camisola: foi capitão de uma das maiores selecções brasileiras de todos os tempos (1982 e 1986). Saiu sem vencer, mas com elegância. "Má sorte, foi pior para o futebol", disse, imitando a célebre frase do jornalista Fernando Calazans: "Se não ganhou a Copa, azar da Copa", quando o Brasil foi eliminado pela Itália no Mundial de 1982. Tinha razão Sócrates. O futebol romântico brasileiro tinha caído aos pés do futebol frio italiano (3-2, no jogo que ficaria conhecido como a "Tragédia de Sarrià"). "Foram os trinta dias mais perdidos da minha vida", diria.

Mesmo assim, conseguiu soltar: "A coisa mais gostosa era jogar ali, uma delícia." Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Brasileiro até no nome, corinthiano no coração, morreu ontem e deixou um vazio no Brasil.


Pesar de Lula

A Confederação Brasileira de Futebol manifestou pesar pela sua morte e informou que os jogos da última jornada do Campeonato Brasileiro, que serão disputados neste domingo, terão o seu minuto de silêncio em sua homenagem.

O Corinthians, equipa na qual se destacou, pode ser campeão nacional neste domingo. "Obrigado pelos lindos golos, pelos toques geniais, pelo futebol magistral que só Sócrates tinha", escreve em comunicado o clube no seu site na Internet.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, corinthiano e amigo pessoal de Sócrates, também lamentou a morte do jogador. "O doutor Sócrates foi um craque no campo e um grande amigo. Foi um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política, além de seu imenso talento como profissional do futebol", disse o ex-presidente.

Sócrates disputou 297 jogos com a camisola do Corithians, marcou 172 golos e venceu três Campeonatos Paulistas, em 1979, 1982 e 1983.


Pode ler mais em 1982: O ano dos deuses falíveis, um artigo do P2, exclusivo para os assinantes do PÚBLICO.

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