WikiLeaks: denúncia de tentativa de venda de urânio em Portugal

Urânio produzido numa central nuclear do Cazaquistão Shamil Zhumatov/Reuters

Um ex-general russo a viver em Portugal terá sido denunciado à embaixada norte-americana em Lisboa por uma alegada tentativa de venda de um bloco de urânio, segundo um telegrama obtido pela organização WikiLeaks e divulgado pelo diário britânico "The Guardian".

Este é um dos casos enumerados pelo jornal para explicar que os telegramas diplomáticos mostram uma atenção especial dos representantes dos EUA a possíveis fugas ou tráfico de material radioactivo que possa ser usado para um atentado terrorista, junto de relatos de latas de urânio encontrados em cestos de verga no Burundi ou um carro radioactivo arménio na fronteira com a Geórgia.

Os EUA têm um sistema de alerta para fugas de material nuclear, a “primeira linha de defesa”, que é quebrada quando o material foi roubado da segunda localização. A “segunda linha” é ultrapassada quando detectores de radiação disparam num posto fronteiriço, por exemplo, explica o "Guardian": “é o corpo diplomático da América que então é chamado a meio da noite”. O jornal cita dados da ONU dizendo que isto terá acontecido cerca de 500 vezes nos últimos 15 anos.

Um dos casos enumerados foi quando em Julho de 2008, a embaixada em Lisboa relatou que um informador que se deslocou ao local contou uma história sobre um general russo reformado que teria um bloco de urânio para vender, mostrando uma fotografia da mercadoria. No telegrama comentava-se que “o visitante declarou que não está a tomar medicação nem consultou nenhum especialista em saúde mental”.

O visitante, de nacionalidade angolana, descreve desta vez a agência Lusa citando o telegrama, “declarou que tinha sido abordado há dois meses atrás por um sócio a tempo parcial chamado Orlando para ajudar a vender ‘placas de urânio’ de um ex-general russo a viver em Portugal. Orlando estava a trabalhar através de um ‘velho’ juiz a viver perto do Porto.”

O informador forneceu dados incluindo morada e meios de contacto. Mas “não foi capaz de dar a identificação do ex-general russo.”

O caso foi encaminhado para especialistas, diz a mensagem, e este assunto não volta a aparecer em nenhum telegrama do lote obtido pela WikiLeaks, segundo o "Guardian".


África e antiga URSS

Mas há casos mais assustadores: em Junho de 2007, no Burundi, um ancião local alertou os americanos para urânio guardado do outro lado da fronteira, na República Democrática do Congo. Recebido com cepticismo, voltou mais tarde com um contrabandista que corroborou o seu relato e trouxe fotografias. A República Democrática do Congo é um dos locais em que há razões para preocupação, já que após a chegada ao poder de Mobutu, em meados dos anos 1960, desapareceram duas barras de urânio. Uma reapareceu em 1998, quando a máfia da Sicília a tentou vender a um cliente no Médio Oriente, e a outra está ainda desaparecida.

E num dos telegramas era descrita a segurança no centro de pesquisa nuclear de Kinshasa: “A barreira não está acesa à noite, não há arame farpado no topo, e não há vigilância vídeo. Também não há uma zona-tampão clara entre o local e a vegetação. Há vários buracos na barreira, e outros em que esta simplesmente não existe. Os estudantes da Universidade de Kinshasa entram frequentemente no recinto para fazerem um atalho no caminho para a universidade, e agricultores de subsistência cultivam mandioca nas instalações perto do local de armazenamento de resíduos nucleares”.

No entanto, a maioria dos incidentes com material da era soviética tem ocorrido mais perto dos países da antiga URSS. Aqui, o desaparecimento do material ocorreu especial logo a seguir ao desmantelamento da União Soviética, e desapareceu uma quantidade significativa de material do qual, explica o Guardian, muito terá sido roubado por oficiais do Exército “como um plano de reforma privado”.

Notícia corrigida às 14h45

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