Vencedor das legislativas na Geórgia apela à demissão do Presidente

“É a única boa decisão para Saakachvili: a de se demitir”, declarou o milionário Bidzina Ivanichvili David Mdzinarishvili/Reuters

O líder da coligação de oposição na Geórgia aconselhou o Presidente, Mikhail Saakachvili, a demitir-se face aos resultados das eleições legislativas de segunda-feira, nas quais o Presidente reconheceu a derrota do seu partido.

Antes mesmo da contagem definitiva dos votos, Saakachvili admitiu a vitória do seu adversário, abrindo a porta a uma transferência pacífica do poder – mas frisou que se manteria na chefia de Estado até ao fim do mandato, no próximo ano.

“É a única boa decisão para Saakachvili: a de se demitir”, declarou o milionário Bidzina Ivanichvili, que encabeça a aliança de seis partidos O Sonho Georgiano. “O meu plano político é simples: assim que a nossa vitória esteja confirmada espero que o Parlamento me aprove como primeiro-ministro”, avançou.

Saakachvili dera horas antes como certa a vitória do rival sobre o seu Movimento de Unidade Nacional: “É já claro que foi O Sonho que conquistou a maioria nestas eleições”, afirmou num discurso transmitido pela televisão estatal, quando pouco mais de um quarto dos votos estavam contados. “Isto quer dizer que a maioria parlamentar deve agora formar um novo Governo e eu, como Presidente, e em conformidade com a Constituição, vou facilitar esse processo para que o novo Governo comece a trabalhar”.

Estas declarações de Saakachvili, político que emergiu com a Revolução Rosa de 2003 na Geórgia – um corte com a tradicional subserviência do país a Moscovo –, faziam antever uma passagem tranquila do poder, depois de uma campanha eleitoral especialmente tensa, com denúncias de intimidações de eleitores, escândalos de abusos cometidos nas prisões e duras acusações mútuas entre os líderes do Movimento de Unidade Nacional e do Sonho.

Perante uma multidão de apoiantes na capital, Ivanichvili dissera ainda na véspera que esta era uma mudança democrática “pela primeira vez” no país – aludindo ao esperado fim de quase uma década de Saakachvili no poder, o qual gozava, de resto, desde as legislativas de 2008, de um Parlamento que lhe era totalmente favorável, com o seu partido a ocupar 119 dos 150 assentos parlamentares.

O Governo de Ivanichvili terá poderes que nenhum outro Executivo georgiano teve desde a independência da União Soviética, na década de 1990. Isto graças a uma reforma constitucional recente que, após as presidenciais do próximo ano, a que Saakachvili não poderá candidatar-se por ter cumprido já dois mandatos consecutivos, transferirá muitos dos poderes presidenciais para o chefe do Governo e para o Parlamento.

Saakachvili foi durante muito tempo tido como um “exemplo de democracia” na vaga de mudanças pró-ocidentais na esfera ex-soviética, elogiado pelos sucessos significativos no combate à corrupção e reformas económicas. Mas esse estado de graça acabaria por ruir com a desastrosa guerra de cinco dias travada em 2008 com a Rússia por causa das regiões georgianas independentistas da Abkházia e Ossétia do Sul.

Na primeira avaliação ao sufrágio, a missão de observadores da Organização de Segurança e Cooperação na Europa frisou ter-se tratado de “um passo importante” na democracia desta república do Cáucaso, antiga república soviética, apesar de uma campanha que decorreu de forma especialmente tensa e sob denúncias de intimidação de eleitores. “Há ainda alguns problemas cruciais a resolver, mas este sufrágio foi um passo importante na consolidação de eleições democráticas”, no país, é dito no comunicado.

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