O Vaticano quer que os países mais industrializados façam todos os esforços possíveis para enfrentar a seca que se regista em várias zonas do mundo e evitar uma nova escalada de preços dos alimentos.
Em entrevista à Rádio Vaticana, o arcebispo Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Santa Sé na ONU, disse, a propósito de uma reunião de responsáveis do G20, que as maiores economias mundiais devem “enfrentar a política global da alimentação no mundo de hoje”.
Citado pela agência Ecclesia, Tomasi acrescentou que é necessário entender “as causas” da escassez alimentar. Estas, disse, não se limitam à seca que afecta várias regiões do globo: “Há uma grande quantidade de alimentos, de produtos agrícolas que são usados para produzir biocombustíveis. Por isso é necessário “equilibrar” a necessidade de defender o meio ambiente com a “prioridade” da alimentação, ligada à vida humana.
O arcebispo italiano acrescenta que o G20 deve ter em conta a “especulação financeira” ligada aos alimentos e que tem consequências nas “faixas mais pobres e necessitadas da população”.
Tomasi refere ainda, de acordo com a mesma fonte, os 170 milhões de crianças com problemas provocados pela alimentação desadequada, sobretudo em países como o Iémen, Somália e Sudão do Sul e na região do Sahel africano. A seca nos Estados Unidos, Rússia, Austrália e outros países que produzem cereais pode levar ao agravamento da crise alimentar e ao aumento do preço dos alimentos. Uma situação idêntica em 2007 e 2008 provocou protestos em mais de 30 países.
Água é um bem público
Numa outra frente, mas relacionada com questões idênticas, o Vaticano enviou uma mensagem à 22ª Semana Mundial da Água, que decorre até sexta-feira em Estocolmo, na qual afirmas que a água é um bem “público”.
No documento, citado pela Ecclesia, o Vaticano diz que é necessária uma acção “urgente” da comunidade internacional para assegurar o acesso de todas as populações à água, que não é “um bem meramente mercantil”.
Esta já não é a primeira vez que o Vaticano defende este princípio, considerando que a água é um “elemento essencial para a vida”. A última vez foi em Março, em Marselha (França), no 6.º Fórum Mundial da Água. Antes, na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010 (1 de Janeiro), o Papa Bento XVI dizia que este recurso está “fortemente ameaçado na sua estabilidade pelas alterações climáticas”. E em 2007, na mensagem a propósito do Dia Mundial da Água, acrescentava que “a água é um direito inalienável” que deve estar acessível a todos, “em particular quem vive em condições de pobreza”.
No documento, o Vaticano acrescenta: “Se é compreensível e lógico que os actores privados tendam a desenvolver actividades rentáveis, eles não devem esquecer que a água tem um valor social e deve ser acessível para todos”, diz o texto do Vaticano.
O texto afirma que são necessárias mais do que “declarações de intenções” num momento em que “milhares de milhões de pessoas estão sem água em quantidade ou qualidade suficientes para uma vida digna, segura e confortável”. E acrescenta que os números da sede estão “subestimados”, por ser necessária ver o direito à água como “acesso regular e constante a água potável que seja acessível economicamente, legalmente e de facto”.
Segundo estes critérios, o Vaticano diz que 1,9 mil milhões de pessoas têm à sua disposição apenas água insalubre e que 3,4 mil milhões de pessoas utilizam ocasionalmente água de “qualidade insegura”.
A Santa Sé, cita ainda a Ecclesia, apela à tomada de “decisões incisivas”. O aquecimento global e as alterações climáticas afectarão os recursos disponíveis e “milhões de pessoas poderiam ficar privadas da água”, avisa, ao mesmo tempo que pede uma melhor gestão da água por parte das autoridades públicas, dos operadores privados e da sociedade civil, recordando a “importância da sobriedade nos consumos”.

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