União Africana prepara encontro entre Governo derrubado da Guiné-Bissau e actual poder

Primeiro-ministro insiste na criação de um tribunal penal ISSOUF SANOGO/AFP

O Governo da Guiné-Bissau derrubado em Abril e o poder saído do golpe de Estado podem encontrar-se “proximamente” na Etiópia — anunciou esta quinta-feira Carlos Gomes Júnior, o primeiro-ministro afastado, que se declarou disponível para o diálogo.

“A União Africana está firmemente empenhada em aproximar as partes”, disse, citado pela RDP África, Gomes Júnior, numa conferência de imprensa, em Lisboa. O encontro deverá realizar-se em Addis Abeba.

Acusado pelo actual poder em Bissau de instigar um ataque a uma base militar, no passado dia 21 de Outubro — no que seria o início de um contragolpe — o primeiro-ministro declarou, segundo a AFP, que essas são “acusações absurdas, uma montagem política”.

Gomes Júnior disse que o poder controlado pelos militares fez uma “montagem macabra” para instaurar um “regime ditatorial” propício ao tráfico de droga. “Só o estabelecimento de forças internacionais sob a égide da União Africana e das Nações Unidas poderá pôr fim à vaga de terror que se instalou”, disse.

Portugal e a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) foram também acusados de envolvimento na acção, que provocou sete mortos e a que se seguiram perseguições a adversários do golpe. Inicialmente, o Governo português não reagiu, mas depois rejeitou qualquer “instrumentalização” sobre questões internas da Guiné-Bissau.

Candidato à Presidência da República, num processo interrompido pelo golpe de 12 de Abril, Gomes Júnior voltou a exigir que seja retomada a via eleitoral. Na primeira volta o primeiro-ministro obteve 48,97%. A segunda não se realizou devido ao golpe, liderado pelo chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, António Indjai.

Gomes Júnior reafirmou um pedido anterior do Governo eleito para que seja aberto um inquérito à violência e criado um tribunal penal para a Guiné-Bissau. Manifestou também a intenção de se recandidatar à liderança do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau) e de regressar ao país, desde que haja condições de segurança.

Ao fim da tarde de quinta-feira não era ainda conhecida qualquer reacção do actual poder. Já esta semana, o porta-voz do Estado Maior, Daba Na Walna, disse que se os dois principais partidos —PAIGC e o PRS (Partido da Renovação Social, do ex-Presidente Kumba Ialá) — não se entenderem o melhor para o país “se calhar era dissolver o parlamento” que se manteve após o golpe.

As autoridades de transição — foi nomeado Presidente Serifo Nhamadjo, terceiro na primeira volta das presidenciais; e primeiro-ministro Rui Barros Duarte — não são reconhecidas pela comunidade internacional, salvo pela Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO). A comunidade africanacomeçou por condenar o golpe mas apadrinhou depois um acordo entre os militares que derrubaram Gomes Júnior e políticos. O acordo prevê realizações no próximo ano.

Os estados da África Ocidental concederam entretanto, na quarta-feira, uma ajuda de 63 milhões de dólares (mais de 48 milhões de euros) destinados à reforma das Forças Armadas. A ajuda foi entregue às autoridades de transição, numa cerimónia em que esteve presente o presidente da Comissão da CEDEAO, Kadré Désiré Ouédraogo. “Esta cerimónia marca o início da reforma no sector da defesa e da segurança”, disse, citado pela AFP. Na altura, foi oficializada a presença da Ecomib, força militar da CEDEAO, de mais de 630 militares e polícias,que está em Bissau desde Maio.

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