A líder da oposição birmanesa Aung San Suu Kyi alertou nesta sexta-feira para o perigo de “excessos de optimismo” sobre o processo de reformas em curso no país. No seu primeiro grande discurso fora da Birmânia em 24 anos, no Fórum Económico Mundial, sublinhou que o povo é ainda “desesperadamente pobre”.
Aplaudida de pé naquela cimeira, que decorre em Banguecoque e onde o fundador do fórum, Klaus Schwab, a apresentou como “uma das mais extraordinárias personalidades do século”, Suu Kyi desafiou a comunidade internacional a manter-se “saudavelmente céptica”.
As instituições de poder na Birmânia, frisou, “ainda estão longe” de ser democráticas e as reformas iniciadas pelo novo Governo – civil, mas que goza do apoio dos militares que mantiverem um regime de mão de ferro durante décadas no país – “não chegaram ainda ao ponto da irreversibilidade”.
Desde as eleições do ano passado, o Presidente Thein Sein surpreendeu a comunidade internacional ao abraçar reformas significativamente rápidas em muitos aspectos – incluindo a libertação de Suu Kyi, que passara 15 dos últimos 22 anos sob alguma forma de detenção decretada pelo regime militar. Suu Kyi foi eleita em Abril para o Parlamento numas eleições legislativas parciais.
Em consequência, Estados Unidos e Europa abrandaram as sanções económicas e políticas – uma medida aplaudida por alguns observadores mas que, segundo outros, pode enfraquecer as motivações do regime para continuar no rumo das reformas democráticas.
Em Banguecoque, perante os grandes investidores mundiais, Suu Kyi elencou as principais necessidades na Birmânia: a educação ao nível secundário e a criação de emprego para a juventude desempregada que, descreveu, constitui actualmente “uma bomba relógio”. E, acima de tudo, insistiu, é preciso que o investimento que entrar no país não “alimente a corrupção e a desigualdade”: “Por favor, pensem profundamente em nós”.
A economia birmanesa está em ruínas após quase cinco décadas de um regime militar muito fechado e mais de 20 de duras sanções económicas internacionais; a par de enormes deficiências nos mecanismos de um estado de Direito e sem um sistema judicial independente. “Precisamos de nos educar, precisamos da educação em que o nosso povo possa ter uma vida decente por si mesmo”, sublinhou.

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