Serão as ruas desertas de Bruxelas uma imagem da Europa do futuro?

Paris pode ser a imagem da raiva e Bruxelas a do medo, mas também poderão vir a ser um retrato do passado e do futuro europeus – o futuro de ruas vazias que o Daesh deseja para o mundo. As reacções ao terror vistas por investigadores e não só.

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Esplanada vazia no centro de Bruxelas JOHN THYS/AFP

Será Paris, com pessoas na rua e nas esplanadas, uma imagem do passado? E Bruxelas, quase deserta este fim-de-semana, uma imagem do futuro? A interrogação é lançada pelo sociólogo Filipe Carreira da Silva, quando questionado pelo PÚBLICO sobre o que justificará a diferença de reacção nas duas capitais face à ameaça terrorista.

Uma semana após os atentados que fizeram 130 mortos, muitos parisienses saíram à rua, como sempre fizeram, mas desta vez com um propósito claro. “Se beber uns copos, ir ao concerto ou ao jogo se vai tornar um combate, podem tremer, terroristas, porque nós estamos bem treinados!”, proclamava-se num cartaz afixado na capital francesa.

Tem sido assim desde o dia seguinte aos atentados, embora com menos gente do que é habitual nas ruas de Paris. Para Carreira da Silva, que é investigador do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, e foi professor na Universidade de Cambridge, “à primeira vista, a diferença entre o que se passa nas duas capitais será o facto de em Paris já ter acontecido e em Bruxelas ser ainda ‘só’ um alerta".

Mas há também esse outro cenário mais arrepiante que o investigador avança, a de Paris como a imagem de uma Europa do passado e a de Bruxelas como o retrato do futuro “desejado pelo Daesh [o nome em árabe do autoproclamado Estado Islâmico] para a Europa e o Ocidente”. “Será o nosso futuro com ruas vazias de pessoas e o exército nas ruas como neste fim-de-semana em Bruxelas?”, questiona, adiantando que para que tal “não se torne verdade não basta desejar: "Há que agir concertadamente, em nome dos valores que nos unem, de modo a garantir a paz na Europa e no próprio Médio Oriente."

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O eurodeputado Paulo Rangel, que na quinta-feira chegou da capital belga, lembra que, ao contrário de Bruxelas, “Paris nunca esteve em estado de sítio”. “Há tanques nas ruas e recomendações expressas do Governo para que não se use os transportes e outros espaços públicos e as pessoas estão a seguir essas directivas. Por outro lado, as escolas e o metro vão continuar fechados e basta isso para mudar o quotidiano de toda a gente”, diz.

Ao contrário do que sucedeu em Paris, onde os principais monumentos e espaços públicos ficaram com segurança reforçada, em Bruxelas todas as forças de segurança estão envolvidas “numa caça ao homem”, em rusgas sucessivas, que as impede de assegurar a vigilância dos espaços mais movimentados, o que aumenta o sentimento de insegurança entre os habitantes, adianta Rangel, acrescentando que se vive ali com a percepção de que, em qualquer altura, poderá acontecer um “acto violento” – já não talvez o atentado para o qual as autoridades alertaram, mas uma acção levada a cabo pelos suspeitos que continuam a ser procurados e que sentem “não ter já nada a perder”. “As pessoas e as autoridades têm essa percepção”, diz.

Por toda a Europa, as medidas de segurança têm vindo a ser reforçadas, incluindo em Portugal. Rangel conta a propósito que, na quinta-feira, foi-lhe pedido o passaporte, quando desembarcou em Lisboa vindo de Bruxelas. Foi a primeira vez que tal lhe sucedeu desde que Portugal aderiu ao espaço Schengen, em 1991, mas agora os voos a partir da capital da União Europeia passaram a estar sob suspeita.

Medo versus raiva
Luísa Lima, professora de Psicologia Social no ISCTE, adianta que “têm sido estudadas dois tipos de reacção emocional a situações de terrorismo: uma centrada no medo, outra na raiva”. “O medo é um sentimento inibidor, de retracção e que aumenta a percepção de ameaça. A raiva, pelo contrário, tem um perfil mais activo, motivando à acção e que diminui a percepção de risco”, explica.

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Bruxelas poderá ser assim a imagem do medo e Paris a da raiva. “O que diferencia o espoletar de uma das duas emoções é a percepção de controlo. Quando acreditamos que se pode fazer alguma coisa para prevenir novos atentados, tendemos a sentir menos medo (e mais raiva)”, especifica a investigadora, para acrescentar que, “neste caso, falamos de um tipo de controlo que não é individual, mas prende-se com a confiança nas autoridades, na tecnologia e nas instituições do próprio país”.

Este controlo “prende-se também com o orgulho nacional e a identificação com os valores associados à pátria”. Nos inquéritos internacionais, “os franceses aparecem como um dos povos em que o orgulho nacional é maior”, lembra Luísa Lima. “Esta forte identidade nacional é outra das bases de combate ao medo”, frisa.

A Bélgica está, neste aspecto, no pólo oposto, constata a socióloga Margarida Marques, da Universidade Nova de Lisboa: “É um país dividido em duas comunidades (francófona e flamenga), que vivem de costas voltas uma para a outra e com frequentes ameaças de cisão.” Por outro lado, acrescenta, “Paris sempre foi uma cidade muito mais cosmopolita do que Bruxelas e com uma muito maior tradição de ocupação do espaço público”. A acrescentar a tudo isto, refere ainda Margarida Marques, e por ser uma cidade muito mais pequena do que Paris, a percentagem da população muçulmana em Bruxelas faz-se sentir com mais acuidade, o que também poderá explicar as ruas desertas da capital belga: “Há uma maior retracção da população muçulmana nestes momentos, porque tem medo não só de ser também atingida por actos terroristas, como de ser atacada devido à facilidade com que, nestas situações, se cola tudo o que é muçulmano ao terrorismo.”

Já para o ex-eurodeputado e historiador Rui Tavares, as diferenças de base entre as duas cidades, onde já viveu, não são assim tão visíveis. “São duas cidades europeias, que não se distinguem muito uma da outra, embora Paris seja muito maior e com uma vivência mais acentuada, enquanto Bruxelas é mais contida e compartimentada.”

Tavares considera assim também que as imagens diferentes que chegam de um lado e de outro têm a que ver sobretudo com o facto de em Paris a ameaça já ter sido concretizada, e por isso a saída à rua reveste a forma de um “desafio colectivo”, enquanto em Bruxelas ainda se está na fase do “pré-acto, estando as pessoas a cooperar com as autoridades”.

Voltando a uma abordagem mais psicológica, poder-se-á afinal dizer o que já se sabe a propósito de outras situações de trauma: "não parar" é também uma forma de fazer o luto por uma enorme tragédia que, de facto, já aconteceu em Paris e que, para já, é "apenas" uma ameaça em Bruxelas.

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