Quando um famoso apoia um candidato, está a ajudá-lo ou nem por isso?

À medida que se aproximaram as eleições presidenciais norte-americanas, choveram declarações públicas de apoio aos candidatos. Clint Eastwood vota Romney, mas George Clooney apoia Obama. E o que é que cada candidato tem a ganhar com isso?

Chuck Norris, actor mundialmente conhecido, e que em Portugal enchia as tardes de domingo da SIC com a série Walker, o ranger do Texas, tem algo a dizer. O seu ar genuinamente preocupado indica que o assunto é serio.

“Olá. Eu sou o Chuck Norris, e esta é a minha mulher, a Gena”, diz, de camisa preta metida dentro das calças, segurando a mão da mulher, loira e elegante. “Se olharmos para a história, o nosso grandioso país e a nossa liberdade estão sob ataque”, avança.

O anúncio de televisão continua com um tom calmo mas sério, como quem está a ter uma conversa importante e acima de tudo honesta, agora na voz de Gena Norris. “Estima-se que em 2008, 30 milhões de cristãos evangélicos ficaram em casa no dia das eleições, e Obama venceu com uma vantagem de 10 milhões de votos”, informa, enquanto o seu marido Chuck diz sim com a cabeça.

“Não podemos continuar sentados e ficar de lado, ao mesmo tempo que vemos o nosso país a tomar o rumo do socialismo ou de algo muito pior”, diz, travando a fundo para dizer “ou de algo muito pior” com ainda mais intensidade.

“Por favor, juntem-se a nós, e vamos unir-nos por Deus e pelo país, para que Deus continue a abençoar os Estados Unidos da América. Vemo-nos nas urnas. Obrigado”, despede-se Chuck Norris, agora já com o braço à volta da mulher.

Chuck Norris nunca refere o nome do candidato republicano ao cargo de Presidente dos EUA, Mitt Romney, durante o anúncio, uma vez que este ainda não tinha sido oficialmente nomeado para essa posição à data da publicação deste vídeo. Ainda assim, noutra ocasião, o actor já tinha escrito que acreditava piamente em Mitt Romney e nas suas “capacidades para derrotar Obama e para parar a sua transformação fundamentalista da América”.

E Mitt Romney, o que tem ele a dizer sobre isto? Interessa-lhe contar com o apoio do homem que ficou conhecido por interpretar durões que chegavam até a parar uma serra eléctrica com as próprias mãos? Na verdade, interessa-lhe, e já agora a Obama também, receber o apoio de qualquer tipo de celebridades?

Famosos ajudam ou atrapalham os candidatos?

“Depende mesmo muito de quem for a celebridade”, aponta Michael Cobb, professor de ciência política na North Carolina State University e autor de um estudo acerca dos apoios de celebridades a políticos nos EUA, numa entrevista por telefone ao PÚBLICO.

“Algumas personalidades são vistas como intelectualmente vazias”, aponta, o que poderá ter até efeitos negativos na campanha que dizem apoiar. É por isso que, segundo Cobb, os apoios de atletas “não são muito solicitados, nem promovidos quando aparecem espontaneamente, porque muitas vezes as pessoas olham para os atletas como burros”, explica o académico, usando a (quase) intraduzível expressão jock, usada para designar um atleta forte, talentoso, popular, e por vezes bonito, mas que é visto como pouco apto a nível intelectual.

Mas para algumas celebridades, o mundo da política não é assim tão distante. Nos EUA, os dois casos mais sonantes foram os de Ronald Reagan e de Arnold Schwarzenegger, que interromperam as suas carreiras em Hollywood para se tornarem Presidente dos EUA em 1981 e governador do estado da Califórnia em 2003, respectivamente.

“Alguns famosos são vistos como politicamente activos e conscientes, como é o caso do [actor norte-americano] George Clooney e do [vocalista da banda U2] Bono, que já há muito tempo estão envolvidos em causas políticas e sociais”, explica Cobb.

“As pessoas olham para algumas celebridades como modelos a seguir, admiram-nas muito. E a partir daí, essas celebridades conseguem vender um produto que é, acima de tudo, político”, avança ao PÚBLICO por telefone Anthony Nownes, professor de ciência política na University of Tennessee, que também estuda este fenómeno na política.

Celebridades não garantem votos, mas motivam eleitorado

Nownes e Cobb concordam que, dentro das consequências positivas que possam advir do apoio de celebridades a candidatos a cargos políticos, não são assim tantos os votos que são angariados através deste método. As celebridades, habituadas às câmaras e às multidões, e livres dos espartilhos protocolares que impõem moderação aos políticos, têm primazia na arte de motivar o eleitorado.

E é de animar multidões que, entre outros, Bruce Springsteen, apoiante de Obama, percebe. “Quando o Bruce Springsteen decidiu associar-se a Obama nestas eleições, muito dos apoiantes de Obama, desde os voluntários que fazem parte da máquina de campanha, até aos eleitores mais desinteressados mas que costumam votar nos democratas, muitos deles ficaram altamente motivados”, conta-nos Cobb.

Bruce Springsteen, conhecido como The Boss e por musicar os EUA de colarinho azul, fez uma música de apoio a Obama, em que entram os versos “Normalmente a esta hora ainda estou de pijama / Bem, vamos lá votar no homem que apanhou o Osama!”. Obama agradece, apesar de não elencar Bruce Springsteen na lista dos seus músicos de eleição .

Ainda assim, refere Nownes, em eleições tão concorridas com as deste ano, qualquer coisa pode fazer a diferença. “Para os 99% de pessoas que não votam num partido só por causa do apoio de um famoso, isto pode não interessar nada. Mas em eleições tão renhidas como estas, qualquer ponto percentual conta. E pode ser o 1% de pessoas que vota consoante o seu actor ou cantor preferido que pode fazer a diferença em caso de empate”, adianta, completando com uma opinião pessoal: “Se as pessoas andam a decidir em que é que vão votar consoante os famosos que os apoiam, então aí só me resta ficar profundamente triste.”

Democratas ganham no voto dos mais famosos

Olhando para a lista de famosos do meio do espectáculo que declaram o apoio aos dois principais candidatos à presidência dos EUA, confirma-se a opinião de Cobb: “Parece que os republicanos têm uma desvantagem natural neste campo”.

Só no mundo da música, Obama conta com o apoio de artistas de vários géneros musicais e que apelam às mais diferentes gerações. Para além de Bruce Springsteen, Obama conta ainda com Madonna, Beyoncé, Jay-Z, Lady Gaga, Kate Perry, Mick Jagger, Stevie Wonder, Justin Timberlake, Kanye West, Pearl Jam ou dos Red Hot Chili Peppers, entre outros.

Neste sector, Mitt Romney tem o apoio de músicos mais marginais, muitos de música country e que são desconhecidos do grande público. O mais famoso entre eles é Kid Rock, que tem dado concertos a favor de Romney e cuja música “Born free” se tornou o hino da campanha do candidato republicano. Conta ainda com o guitarrista Ted Nugent, o vocalista da banda de thrash metal Megadeth Dave Mustaine ou, entre outros, Genne Simmons, o baixista dos KISS.

No cinema o campo volta a inclinar-se para os democratas. Obama conta com o apoio de George Clooney, Angelina Jolie, Will Ferrell, Sarah Jessica Parker, Eva Longoria, Morgan Freeman ou, entre vários outros, Tom Hanks. Do lado de Romney, além de Chuck Norris, está Sylvester Stallone, Lindsay Lohan, Robert Duvall, Andy Garcia ou Clint Eastwood, que protagonizou um dos discursos mais aplaudidos da Convenção Nacional Republicana deste ano .

Nownes, no entanto, desvaloriza este facto. “As pessoas costumam ligar muito a isso de os democratas terem mais famosos a apoiá-los, mas se virmos bem, eles são, dentro do grupo dos milionários, os únicos que apoiam os democratas por regra. O resto, e aqui incluem-se principalmente homens e mulheres de negócios e donos de grandes empresas, apoia incondicionalmente os republicanos, e neste caso Mitt Romney”, argumenta.

Famosos podem arriscar a sua própria credibilidade

E os famosos, o que podem eles ganhar ao apoiarem um candidato? Muito pouco, dizem os especialistas. Podem até perder bastante.

“A credibilidade destas pessoas está em risco a partir do momento em que apoiam uma causa ou personalidade política”, explica Cobb, com um exemplo: “Eu posso muito bem ficar a saber que a Angelina Jolie apoia Obama e, a partir daí, talvez nunca mais vá ver um filme dela por causa disso”.

As Dixie Chicks, uma das bandas de country mais populares dos EUA, caíram nesse “erro”. Em 2003, na altura em que os EUA invadiam o Iraque de Saddam Hussein, durante um concerto em Londres, a vocalista Natalie Maines disse ao público britânico: “Só para que todos saibam, nós estamos no lado bom convosco. Nós não queremos esta guerra, esta violência, e temos vergonha de o Presidente dos Estados Unidos ser do Texas.”

Os fãs das texanas, geralmente conservadores, à semelhança do que acontece com as outras bandas de música country, não tardaram a reagir. Numa semana, a versão das Dixie Chicks da música “Landslide” de Stevie Nicks desceu do número 10 das 100 mais ouvidas nas rádios americanas para o 43º lugar. Na semana seguinte saiu da tabela. A partir daí, foram várias as pessoas que iam a concertos das Dixie Chicks, não para desfrutar da música das texanas, mas antes para as vaiar.

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