Protestos na abertura da primeira clínica privada de aborto na Irlanda do Norte

Manifestantes frente à clínica Marie Stopes Peter Muhly/AFP

Abre nesta quinta-feira em Belfast a primeira clínica privada da Irlanda do Norte dedicada à realização de abortos. A iniciativa promete reabrir a polémica sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG) nesta província do Reino Unido, com uma lei muito mais restritiva do que a aplicada no resto do país.

“Decidimos abrir esta clínica porque tratamos em Inglaterra muitas mulheres vindas da Irlanda do Norte”, disse à BBC Paula Franklin, médica e responsável da ONG britânica Marie Stopes, especializada em aconselhamento contraceptivo, IVG e despistagem de doenças sexuais.

A organização assegura que só irá realizar abortos não cirúrgicos (com recurso a medicamentos) dentro do que está previsto pela legislação local. Isto porque na província os abortos só são autorizados até à nona semana de gestação e quando a gravidez represente um risco para a vida da mãe ou possa ter “impactos físicos ou mentais permanentes”. A intervenção também só pode ser realizada após parecer positivo de dois médicos.

Tal como na vizinha Irlanda, onde a IVG só é autorizada em caso de risco para a vida da mãe, a forte presença da religião na sociedade (sobretudo nas comunidades católicas) torna o aborto um tema tabu.

Nos últimos seis anos, foram efectuadas 262 IVG nos hospitais públicos da província, segundo as estatísticas oficiais citadas pela AFP. Muitos médicos são objectores de consciência e outros queixam-se de que o enquadramento da lei é vago.

Mas nem a lei, nem a pressão social impedem que anualmente milhares de mulheres viajem até Inglaterra, Escócia ou País de Gales para interromper gravidezes não desejadas. No ano passado, quase mil mulheres residentes na província realizaram abortos na ilha vizinha, o mesmo acontecendo com quatro mil irlandesas.

Números que não tornam menos polémico o assunto, como prova a discussão que antecedeu a abertura da clínica em Belfast. A organização Precious Life (Vida Preciosa) convocou uma manifestação para a porta da clínica, a fim de exigir uma “Irlanda livre de abortos”. Esta manhã, algumas horas antes da inauguração, a BBC contava já 40 manifestantes frente às instalações contra o que um cartaz descrevia como “o mais grave dos abusos contra as crianças”.

Alguns políticos temem também que a polémica reabra o debate sobre a actual legislação, noticiou a AFP, recordando que há muitas pressões para que a província equipare a sua lei à da vizinha Irlanda. Receando pela segurança, a Marie Stopes pediu à imprensa instalada às suas portas que não identifique utentes e funcionários e disse estar a trabalhar com a polícia para garantir a segurança das instalações.

No resto do Reino Unido, o aborto é permitido até às 24 semanas em caso de malformação do feto ou risco para a saúde física ou mental da mulher. Depois desse prazo, só são autorizadas IVG em situações extremas, caso de malformações muito graves para o feto ou risco para a vida da mulher.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues