Protesto de jornalistas contra censura testa a nova liderança chinesa

Substituição de editorial pedindo mais abertura em 2013 tornou-se num caso em que se espera a resposta das autoridades de Pequim para ver que direcção o país tomará nos próximos anos.

O protesto em frente à redacção do Southern Weekly foi pacífico James Pomfret/Reuters

Uma rara acção de jornalistas de um dos mais respeitados jornais da China, que protestaram abertamente contra uma acção de censura, poderá ser um teste para a nova liderança que tomou posse há apenas dois meses e as suas intenções reformistas. Observadores dizem que o modo como o Partido Comunista do novo Presidente Xi Jinping vai responder a esta crise poderá indicar a direcção para os próximos anos.

O protesto em Guangzhou, capital da província de Guangdong (Cantão), foi provocado por uma alteração feita pelo chefe da censura local a um editorial do Southern Weekly. O texto original pedia que fossem garantidos os direitos constitucionais aos chineses (pedindo que pudessem "expressar alto e com confiança as suas críticas"); o texto alterado fazia um elogio ao partido (tinha como título Estamos agora mais perto do nosso sonho do que alguma vez estivemos).

De seguida, na rede de microblogging do jornal, uma declaração dizia que o editorial era mesmo verdadeiro, embora os editores negassem, dizendo que as autoridades tinham tomado conta da página do jornal na rede social.

Os jornalistas decidiram retaliar e não foram trabalhar nesta segunda-feira, numa greve envolvendo 100 pessoas do sector editorial. Houve ainda um protesto à porta da redacção, que contou com umas duas centenas de pessoas. A polícia tentou recolher identificação de quem segurava cartazes, mas os manifestantes recusaram-se. Os polícias não insistiram e a manifestação terminou pacificamente.

O diário britânico Financial Times comenta que este é o primeiro incidente de revolta aberta contra a censura à imprensa desde Janeiro de 2006, quando o encerramento da revista Bing Dian foi decretado pelo partido, levando a uma onda de indignação.

Desta vez, também a indignação não foi restrita aos jornalistas, com 18 académicos (professores de Direito, economistas, historiadores, escritores) a assinar uma petição pedindo a demissão de Tuo Zhen, o responsável pelo Ministério da Propaganda da província.

Os jornalistas também fizeram abaixo-assinados de protesto pedindo a saída de Tuo, acusando-o de ser "ditatorial" numa era de “abertura crescente” e de ter protagonizado uma interferência "grosseira".

"Estão a levar-nos para a frente ou a fazer-nos recuar?"
O correspondente da BBC em Pequim, Martin Patience, sublinha que se trata de um caso envolvendo um dos mais respeitados jornais chineses, conhecido pelas suas investigações e por testar os limites da liberdade de expressão.

David Bandurski, especialista em media na Universidade de Hong Kong, notava ao Financial Times que esta questão tornou-se "um problema grave" e que muitos "projectam este caso nas tentativas de a nova liderança se apresentar sob uma nova luz e adoptar um novo estilo e questionam: estão a levar-nos para a frente ou estão a fazer-nos recuar?"

He Weifang, professor de Direito da Universidade de Pequim, comentou ao diário britânico The Telegraph que este era um desafio aos novos líderes: "Até agora, não mostraram a sua posição face à reforma política. Desta vez, a ira do público pode bem testar a nova liderança".

Ainda é muito cedo para perceber se Tuo poderá mesmo ser despedido ou se os jornalistas vão ser penalizados, disse He, mas a reacção do Governo central poderá dar uma ideia do que podem esperar os chineses dos seus novos líderes. Bandurski concorda: "A questão já não tem só a ver com media. Tem a ver com a direcção em que a China vai."

Notícia alterada a 8/01, corrigido o nome de He Weifang

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