Os tablóides "destruíram a vida de muitas pessoas inocentes" e a sua actuação "inadmissível" ficou quase sempre sem castigo. Foi com base neste veredicto que o juiz Brian Leveson, responsável pelo maior inquérito alguma vez realizado aos jornais britânicos, recomendou que o sector passe a ser supervisionado por uma entidade com poderes reforçados, inscritos numa lei de imprensa que o país não tem há séculos. A proposta é repudiada pelos grupos de comunicação e divide a coligação no Governo, com o primeiro-ministro a recusar a ideia, dizendo que qualquer intromissão política no sector "tem o potencial de limitar a liberdade de imprensa".
"Demasiadas vezes, ao seguir uma história, sectores da imprensa agiram como se o seu código, que eles próprios escreveram, simplesmente não existisse", disse Leveson, o magistrado a quem Cameron atribuiu, no Verão de 2011, a tarefa de investigar "as práticas e a ética" da imprensa, no rescaldo do escândalo das escutas que forçou Rupert Murdoch a fechar o jornal News of the World (NoW).
O relatório ontem publicado, após mais de 400 audições, traça um retrato pouco simpático de uma "indústria" que se define como guardiã da democracia e que goza no Reino Unido de um poder invejável. Se a imprensa serve o país "muito bem durante a maior parte do tempo", há nas últimas décadas exemplos suficientes de jornalistas que "desdenharam os direitos e liberdades de pessoas inocentes" e trataram os famosos e as suas famílias como "coutadas", lê-se no relatório.
Leveson não se debruça em pormenor sobre as centenas de escutas realizadas pelo NoW entre 2001 e 2006, uma vez que as investigações da polícia ainda decorrem e uma inquirição pública só pode avançar depois de concluídos todos os processos. Ainda assim, é particularmente duro com o grupo de Murdoch, ao escrever que "a maioria das empresas reputadas ficaria chocada se os seus funcionários tivessem ou pudessem ter cometido crimes no decurso da sua actividade". "Isso não aconteceu no News of the World", que, durante anos, tentou abafar o escândalo.
O caso é, no entanto, apenas um dos muitos exemplos de abusos relatados a Leveson durante os oito meses de audições e que o levam a denunciar o falhanço do actual sistema de auto-regulação, dizendo ser tempo de retirar aos jornais o poder de "ser juízes em causa própria".
Em substituição da Press Complaints Commission, um organismo composto e financiado pelos grupos de comunicação, o magistrado propõe uma entidade de supervisão "verdadeiramente independente", onde "nem jornalistas nem nomeados políticos estejam em maioria".
Leveson diz que a nova entidade só será eficaz a punir ou prevenir novos abusos, se a sua acção estiver enquadrada por uma lei de imprensa - legislação que, segundo o Guardian, não existe no Reino Unido desde o século XVII. Mas se a mera sugestão de supervisão externa é repudiada por quase todos os proprietários de jornais, a ideia de colocar o Parlamento a legislar sobre a imprensa é insuportável tanto para jornalistas como para o Partido Conservador.
Quebra-cabeças
Um cenário que torna mais complexo o quebra-cabeças que Cameron criou para si próprio: se, por um lado, não pode hostilizar jornais (uma má imprensa tornaria ainda mais difícil a sua reeleição), por outro lado, está obrigado a agir. Seja porque foi ele a criar a comissão, seja porque o caso das escutas mostrou o quão próximo era do grupo Murdoch.
Um difícil equilíbrio que explica as declarações do primeiro-ministro na Câmara dos Comuns. Ao mesmo tempo que elogiou as conclusões de Leveson, disse ter "sérias preocupações" sobre a hipótese de pôr os deputados a legislar nesta matéria. "O perigo é o de criar um veículo para que os políticos, hoje ou no futuro, imponham regras e obrigações à imprensa", afirmou, gerando protestos do grupo que representa os visados pelas escutas e a discordância pública do parceiro de coligação.
Pela primeira vez, o vice-primeiro-ministro, o liberal Nick Clegg, falou depois de Cameron no Parlamento para dizer que concorda que os direitos e deveres dos jornalistas devem estar consagrados na lei. "Uma imprensa livre não significa uma imprensa livre para atormentar pessoas inocentes ou abusar de famílias enlutadas."

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