África do Sul: por que aterrou um avião com convidados para casamento numa base militar?

Avião aterrou numa base militar com convidados para casamento particular. Governo sul-africano nega ter dado autorização.

AFP/EYE WITNESS NEWS

Um Airbus A330-200 fretado pela família Gupta, uma das mais ricas e influentes da África do Sul, aterrou em Pretória, na quarta-feira, com perto de 200 convidados vindos da Índia para o casamento, numa estância luxuosa, de uma das jovens do clã de origem indiana e com ligações muito próximas ao Presidente sul-africano.

Mas o que poderia ser considerada apenas uma extravagância transformou-se num caso de justiça. O avião aterrou numa base militar, sem autorização oficial, e os convidados foram escoltados por carros da polícia até ao seu destino. Cinco pessoas, incluindo altos responsáveis militares, foram suspensos esta sexta-feira.

Os Gupta são donos de várias empresas, incluindo o grupo informático Sahara Computers e o jornal New Age, considerado como a voz do ANC, partido no poder na África do Sul. Dois dos filhos do Presidente Jacob Zuma são directores em empresas dos Gupta. O seu poder económico permitiu-lhes organizar o casamento de Vega Gupta, 23 anos, uma das herdeiras da família, durante quatro dias na estância turística de Sun City. Sendo de origem indiana, os Gupta convidaram familiares e amigos da Índia para assistirem à cerimónia.

Na quarta-feira, um avião com 200 convidados aterrou na base militar de Waterkloof, em Pretória, sem que haja qualquer registo de uma autorização oficial para a aterragem. “Tanto quanto sei, nenhuma permissão foi acordada com um cidadão privado para utilizar a base. Trata-se de uma base militar e de um local estratégico nacional usado pelo Governo e os seus convidados”, sublinhou à agência Sapa o porta-voz do Exército sul-africano, Siphiwe Dlamini. Estas declarações contrastam com as prestadas, em comunicado, pela família Gupta, segundo a qual foi dada uma autorização para a aterragem do Airbus, que “transportava ministros estrangeiros e outros dignatários”, obtida junto das SANDF, as Forças Armadas sul-africanas.

O caso Guptagate
No país, apenas o jornal New Age se manteve em silêncio sobre a polémica. Os media e os partidos políticos, incluindo o próprio ANC, questionaram como foi possível um avião civil aterrar na base de Waterkloof sem permissão e agentes do Estado terem sido mobilizados para escoltar particulares durante actividades sociais. Além da pressão sobre as Forças Armadas e a polícia, também a embaixada da Índia na África do Sul irá ser investigada sobre eventuais abusos diplomáticos neste caso.

Numa conferência de imprensa que decorreu na manhã desta sexta-feira, e na qual estiveram presentes seis ministros do Executivo sul-africano, o titular da pasta da Justiça, Jeff Radebe, anunciou que cinco pessoas foram suspensas das suas funções – três comandantes da Força Aérea, um comandante da polícia e um funcionário diplomático – e três polícias detidos. No encontro com jornalistas não houve qualquer indicação de que os Gupta poderiam ser alvo de um procedimento judicial.

Mais uma vez, foi confirmado que não existiu uma autorização para a aterragem do Airbus. “O Governo não tem registo de uma nota verbal por parte da alta comissão indiana a notificar o departamento para as relações internacionais e cooperação sobre a visita de uma delegação que requeresse assistência diplomática ou autorização para aterragem”, afirmou o ministro.

Ainda de acordo com Jeff Radebe, foram avançadas as primeiras acusações neste caso: uso indevido de luzes azuis de emergência e de chapas de matrícula falsas. No prazo máximo de sete dias é esperado que fique concluída a investigação ao caso, que já ficou conhecido como Guptagate.

Quanto aos Gupta, para já existem apenas comunicados divulgados pela imprensa sul-africana. A família nega falhas na autorização para a aterragem do avião e que algum elemento da polícia sul-africana tenha sido utilizado para escoltar a família durante o casamento.

Além do escândalo interno, o Guptagate arrisca tornar-se um incidente diplomático. Segundo a Reuters, o casamento foi interrompido para interrogatórios, provocando a indignação entre convidados, e há suspeitas de abuso de poder por parte de responsáveis indianos no país para conseguir os direitos de aterragem. “Não é normal que um oficial numa embaixada se dirija a uma entidade governamental e comece a solicitar autorizações”, criticou na conferência de imprensa desta sexta-feira a ministra dos Negócios Estrangeiros sul-africana, Maite Nkoana-Mashabane, que tem uma reunião agendada com o embaixador indiano.

Os perto de 200 convidados do casamento vindos da Índia regressaram esta sexta-feira ao país, depois do Airbus 330-200 da Jet Airways ter sido levado da base militar para o aeroporto internacional OR Tambo, em Joanesburgo.
 
 

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