O Papa Bento XVI pediu na tarde desta quarta-feira mais liberdade religiosa em Cuba, na homilia da missa por ele presidida na Praça da Revolução, em Havana. Pouco depois recebeu o líder da revolução cubana, Fidel Castro.
O encontro com Fidel Castro foi confirmado pelo porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. O ex-chefe de Estado cubano já tinha anunciado esse encontro no site oficial Cubadebate. “Saudarei Sua Excelência o Papa Bento XVI, como o fiz com o Papa João Paulo II, um homem a quem o contacto com as crianças e com os cidadãos humildes do povo suscitava, invariavelmente, sentimentos de afecto”.
O Papa Bento XVI pediu esta tarde (manhã em Havana) mais liberdade religiosa em Cuba, na homilia da missa por ele presidida, que terminou há uma hora atrás, na Praça da Revolução, em Havana. Diante da efígie de Che Guevara e naquela que é o local simbólico das grandes concentrações do regime, o Papa alemão (85 anos a 16 de Abril) enalteceu “os passos que se têm realizado em Cuba para que a Igreja cumpra a sua irrenunciável missão de anunciar, publica e abertamente, a sua fé”. Mas, acrescentou, “é preciso seguir em frente”.
Bento XVI apelou às autoridades governamentais que reforcem “aquilo que já foi alcançado” e que prossigam “por este caminho de genuíno serviço ao bem comum de toda a sociedade cubana”.
Perante o Presidente Raul Castro, sentado na primeira fila dos convidados e uma multidão de centenas de milhares de pessoas, o Papa Ratzinger acrescentou que “o direito à liberdade religiosa, tanto na sua dimensão individual como comunitária, manifesta a unidade da pessoa humana, que é simultaneamente cidadão e crente, e legitima também que os crentes prestem a sua contribuição para a construção da sociedade”.
Esta ideia foi o pretexto para Bento XVI afirmar que o reforço da liberdade religiosa “consolida a convivência, alimenta a esperança de um mundo melhor, cria condições favoráveis para a paz e o desenvolvimento harmonioso, e ao mesmo tempo estabelece bases firmes para garantir os direitos das gerações futuras”.
Já na audiência com o Presidente Raul Castro, que decorrera de madrugada (hora de Lisboa, final da tarde de ontem em Havana), o Papa pedira que o regime abrisse mais o espaço de actuação da Igreja Católica. E pediu concretamente que o dia de Sexta-Feira Santa fosse declarado feriado, segundo revelou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.
Há 14 anos, João Paulo II pedira o mesmo a Fidel Castro, o líder máximo do regime, em relação ao dia de Natal, que comemora o nascimento de Jesus Cristo. Agora, Bento XVI quer que a data em que se assinala a morte de Cristo seja também feriado.
Federico Lombardi não indicou qual foi a resposta do Presidente Raúl, irmão do líder máximo Fidel Castro, acrescentando que compete às autoridades cubanas tomar a decisão sobre o assunto.
Na sua homilia, o Papa afirmou que, ao reivindicar mais liberdade religiosa, a Igreja “não está a reclamar qualquer privilégio”, antes pretende ser fiel ao seu mandato, “consciente de que, onde se torna presente Cristo, o homem cresce em humanidade e encontra a sua consistência”. Mas não deixou de acrescentar que também em Cuba seria desejável que a Igreja pudesse “levar aos diversos campos do saber os benefícios” da sua missão – numa alusão a instituições de ensino como escolas e universidades, que em Cuba são da exclusiva responsabilidade do Estado.
Ratzinger acrescentou ainda que “é essencial” que a Igreja possa “proclamar e celebrar mesmo publicamente a fé, comunicando a mensagem de amor, reconciliação e paz que Jesus trouxe ao mundo”. E recordou a figura do padre
Félix Varela, educador e professor, “que passou à história de Cuba como o primeiro que ensinou o seu povo a pensar”. Varela, afirmou, “indica-nos o caminho para uma verdadeira transformação social: formar homens virtuosos para forjar uma nação digna e livre, já que esta transformação dependerá da vida espiritual do homem”. E acrescentou: “Cuba e o mundo precisam de mudanças, mas estas só terão lugar se cada um estiver em condições de se interrogar acerca da verdade e se decidir a enveredar pelo caminho do amor, semeando reconciliação e fraternidade.”
Só no final das missa, que terminou às 16h30 (hora de Lisboa), a multidão irrompeu em aplausos e a aclamar “viva el Papa” – em Santiago de Cuba, primeira etapa cubana de Bento XVI, as manifestações tinham sido mais efusivas. No início das diferentes celebrações litúrgicas, era sempre pedido que se respeitasse o silêncio e que não houvesse aplausos e a solicitação foi sempre respeitada.
Comentando uma das leituras bíblicas da missa, que narra um episódio do Antigo Testamento em que israelitas são mandados pelo rei Nabucodonosor, da Babilónia, para a fogueira, o Papa afirmou que os três jovens “antes preferem morrer queimados pelo fogo que trair a sua consciência e a sua fé”.
O episódio serviu para Ratzinger dizer que “a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica”. Mas há quem escolha caminhos enviesados na busca da verdade, preferindo “lavar as mãos” como o governador romano da Palestina do tempo de Jesus, Pôncio Pilatos. Outros, “legalistas”, são levados “à irracionalidade e ao fanatismo” e tentam impor a sua verdade aos outros.
O Papa referiu que “a verdade sobre o homem é um pressuposto imprescindível para alcançar a liberdade, porque nela descobrimos os fundamentos duma ética com que todos se podem confrontar”. E acrescentou que essa ética “contém formulações claras e precisas sobre a vida e a morte, os deveres e direitos, o matrimónio, a família e a sociedade, enfim sobre a dignidade inviolável do ser humano”.
Só esse património ético “pode aproximar todas as culturas, povos e religiões, as autoridades e os cidadãos, os cidadãos entre si, os crentes em Cristo com aqueles que não crêem n’Ele”, afirmou ainda Bento XVI. E reiterando a validade da proposta cristã, disse: “Ao ressaltar os valores que sustentam a ética, o cristianismo não impõe mas propõe o convite de Cristo para conhecer a verdade que nos torna livres.”
Não referindo directamente qualquer tema relativo às liberdades políticas em Cuba, o Papa afirmou ainda que Jesus Cristo ajuda “a superar os nossos egoísmos, a sair das nossas ambições e a vencer o que nos oprime”. Quem “pratica o mal, aquele que comete pecado é escravo do pecado e nunca alcançará a liberdade” e só “renunciando ao ódio e ao nosso coração endurecido e cego é que seremos livres, e uma vida nova germinará em nós”, acrescentou.
O Papa acrescentou que “a verdadeira medida do homem é Cristo” e que só nele “todos encontrarão a liberdade plena, a luz para compreender profundamente a realidade e transformá-la com o poder renovador do amor”.
A missa na Praça da Revolução foi o último acto público desta viagem de Bento XVI à América Latina, que antes o levara já ao México. Antes da cerimónia de despedida, prevista para as 22h30 de Lisboa (16h30 em Cuba), o Papa deverá ainda encontrar-se com Fidel Castro, afastado da liderança corrente por razões de saúde.
Notícia actualizada às 19h05

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