PAIGC ganha legislativas na Guiné-Bissau, presidenciais vão ter segunda volta

Cargo de Presidente da República será disputado em Maio, entre o candidato do principal partido e o favorito dos militares.

PAIGC ganhou legislativas mas tem ainda o desafio das presidenciais Joe Penney/Reuters

O PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) venceu as eleições de domingo na Guiné-Bissau e conseguiu a maioria absoluta, mas perde deputados face às últimas legislativas. O candidato presidencial da principal força política do país, José Mário Vaz, vai disputar a eleição para a chefia do Estado numa segunda volta com Nuno Gomes Nabiam, independente apoiado pelo ex-Presidente Kumba Ialá, que morreu há duas semanas.

As eleições gerais, cujos resultados provisórios foram divulgados na quarta-feira à noite, em Bissau, marcam o regresso do país à democracia, após o golpe de Estado de Abril de 2012. Os votos dos eleitores guineenses determinam que o próximo primeiro-ministro seja o líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, 50 anos, secretário executivo da CPLP (Comunidade dos País de Língua Portuguesa) até 2012.

O PAIGC, que liderou a luta pela independência e foi até ao início dos anos 1990 o partido único da antiga colónia portuguesa, elegeu 55 deputados que lhe garantem a maioria absoluta num parlamento de 102 lugares. Mas perde 12 face aos 67 que conseguiu nas anteriores legislativas, em 2008. Os resultados — que não incluem ainda dois deputados que representarão a emigração — confirmam que a segunda força política da Guiné-Bissau continua a ser o PRS (Partido da Renovação Social), que vê aumentado o número de eleitos de 28 para 41. Os quatro restantes deputados já eleitos distribuem-se por três pequenas forças políticas: Partido da Convergência Democrática, dois mandatos; Partido da Nova Democracia, um; União para a Mudança, um.

Nas presidenciais, o candidato dos “libertadores”, João Mário Vaz, conseguiu 40,99% dos votos. Na segunda volta, prevista para 18 de Maio, tem como adversário Nuno Gomes Nabiam, que recolheu no domingo 25,14%.

O terceiro mais votado, num total de 13 candidatos, foi Paulo Gomes, independente que conseguiu 9,87%. Segundo informação obtida pelo PÚBLICO, não deve dar indicação de voto para a segunda volta. O candidato oficial do PRS, Abel Incada, obteve 7,3%. Os outros nove candidatos tiveram todos menos de cinco por cento, tendo o mais votado de entre eles sido Mamadu Iaiá Djaló, do PND, com 4,56%.

João Mário Vaz, conhecido como JOMAV, era ministro das Finanças do governo derrubado pelo golpe de há dois anos e desagrada à actual chefia das Forças Armadas. Nuno Nabiam, presidente da Agência de Aviação Civil, que concorreu como independente, tinha o apoio de Kumba Ialá, que fez a maior parte da campanha ao seu lado. São-lhe atribuídas ligações à cúpula militar.

O golpe liderado por António Indjai, chefe das Forças Armadas, derrubou há dois anos o Governo do então primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior,  Cadogo, à época líder do PAIGC — partido que entretanto integrou o governo de transição. Gomes Júnior, agora exilado em Cabo Verde, viu a sua candidatura presidencial a estas eleições inviabilizada pela força política a que pertence, para não hostilizar a hierarquia militar. Em 2012 era ele o candidato e foi o mais votado na primeira volta, com quase 49%.

O que aconteceu há dois anos leva a que o período seguinte à divulgação dos resultados eleitorais seja encarado com apreensão. Fernando Vaz, ministro de Estado e porta-voz do Governo de transição, líder de um pequeno partido, a União Patriótica Guineense, acusou na quarta-feira  — antes da divulgação dos resultados — o representante das Nações Unidas na Guiné-Bissau, José Ramos-Horta, e a eurodeputada portuguesa Ana Gomes de se imiscuírem nos assuntos internos da do país.

O político guineense disse, segundo a Lusa, que o representante das Nações Unidas tem mantido “encontros secretos” e dado orientações sobre os cargos de primeiro-ministro, Presidente e líder dos militares. No caso da eurodeputada, acusa-a de pretender desestabilizar o país por ter dito à agência de notícias que a Comunidade Económica dos Estados da Africa Ocidental (CEDEAO) patrocinou o golpe de 2012.

A CEDEAO, que apoiou o poder transitório instaurado após o golpe, prometeu desta vez, nas palavras do presidente da sua comissão, Kadré Désiré Ouédraogo, “tolerância zero para um acesso não constitucional ao poder” e decidiu manter até Dezembro deste ano a missão de cerca de 750 militares que tem no país.

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